Persepolis – Marjane Satrapi.

É o tipo de livro que eu gosto muito: mão única. Abre, lê numa tacada só e vai para o próximo. Não num movimento maldoso de desprezo, mas por que ele prende do começo ao fim, você quer saber o que vai acontecer, quer saber se ela vai se dar bem ou se vai se dar mal. É, para começo de conversa, uma biografia em quadrinhos da autora – uma iraniana que nasceu e teve parte da infância numa monarquina e depois, a adolescência e vida adulta numa república. Era apenas uma criança no meio da Revolução Cultural.

Vale, antes de falar da prosa, dar uma enfoque na Revolução Cultural Iraniana: para quem ler “Persépolis”, vai entender do parâmetro histórico, pois ela o explica do geral para o particular, mas para quem não leu, não adianta eu falar da história, (sem o maldito spoiler, por que né…) sem ambientá-la primeiro.

Esta é a edição completa, os quatro volumes de uma vez.

Irã era comandado por um Xá, que se viu oprimido pela invasão cultural do ocidente à busca de petróleo. E, ao ceder para o Ocidente, foi contra leis do Alcorão e os outros países Muçulmanos (bem como a “bancada evangélica – desculpa a piadinha; a “bancada Religiosa”) se sentiram ofendidos com isso. O Xá era famoso por seu tratamento amabilíssimo aos opositores, o que já lhe garantia incrível fama. Com essa invasão ocidental, os opositores, religiosos e esquerdistas, se uniram para depô-lo. A economia que ia bem com a venda de petróleo e aço, mas não ajudavam os pobres e a classe média, pois a inflação subia na mesma proporção. Então, com o povo insatisfeito, eles foram às ruas pedindo a queda do Xá. Findada a Revolução Cultural – que ia contra a ocidentalização do Irã, um aiatolá estava no poder. Um líder religioso que cobriu a cabeça das meninas, os braços dos homens e retrocedeu a “modernização social”.

Diferente da Revolução Cultural da China, que propulsou o país para o comércio e abertura, o Irã se fechou.

E é aí que entra a, na época, menina Marjane. Que se vê com véu contra a vontade, onde era antes, incentivada a ler os clássicos mais clássicos das ciências Sociais e políticas e à própria independência.

Sem avançar muito na história de sua vida, ela tinha experiência fora do país, para poder comparar o Oriente natal, do Ocidente que viria a ser sua casa. Isso, atrelada à independência, a faz uma moça além da própria sociedade (lugar comum nas artes, aliás), e dos estigmas normais de uma garota iraniana da classe média alta.

Olá, Marjane. Ela é neta do Xá que foi deposto, seu avô era ministro na época. Ela diz que não é grande coisa ser neta do Xá, pois o Xá teve centenas de esposas e milhares de filhos, nas suas contas, é uma neta, entre os 16 000 na mesma condição.

Marjane faz uma crítica ao próprio país, mas não como nós Brasileiros criticamos o nosso: ela o faz como os Modernistas o faziam. Dotada de um nacionalismo crítico, longe daquele Nacionalismo de Macunaíma e das críticas “é assim mesmo, aqui é Brasil” dos Brasileiros de hoje. Critica o retrocesso da cultura, a posição das mulheres em seu país, as mulheres “moderninhas” que conheceu, que não tinham relações com os namorados, mas usavam o batom última moda.

Trata sua biografia como um diário, completamente sincera e verossímil, como uma conversa direta com o leitor. Sobre seu traço simples e longe de arabescos, sabe usar o preto no branco muito bem e não torna o tom monocromático em monótono. Em 2007, transformaram sua história em longa, com o mesmo traço simples e dos quadrinhos:

Que ganhou o London Film Festival, São Paulo Film Festival, Vancouver Film Festival, como melhor filme estrangeiro e fora esses, apenas um Cannes.

Concluindo essa primeira (merda de) resenha, se eu tivesse formação o suficiente para falar da qualidade de uma ótica técnica, eu o faria. Enquanto leitora, só o que eu posso dizer é que vale a pena. É o tipo de livro, que enquanto você pensa: “não é só no Brasil que o patriarcado toma conta, pelo contrário!” Aqui, as coisas ainda dão para levar, querendo ou não, a liberdade está à vista, não ao alcance das mãos, mas à vista. Com as Iranianas, o buraco é bem mais embaixo. Não é o tipo de livro que eu dou graças por poder viver na situação brasileira, mas abre o olho quanto à situação das outras. Conhecimento implítico, palitinhos para abrir os olhos.

É, é isso. O livro da Marjane é um sutil, confortável e delicado palitinho para abrir os olhos.