Laranja Mecânica – Anthony Burgess

Primeiro, quero agradecer ao WordPress. Por ter simplesmente sumido com a primeira tentativa de postagem sobre o livro. Valeu mesmo.

Quando eu era uma Devotchka, com meus 13/14 anos, Laranja Mecânica apareceu na sala de aula, em plena Filosofia. Violência gratuita horrorshow, nem assistimos até o fim pois não era só na minha litso, que estava estampada o estranhamento. A sala inteira ficou muito sem saber o que dizer, quando via Alex e sua turma, logo nas primeiras cenas do filme, batendo num homem e estuprando uma mulher, na versão de Kubrik. O professor levou um ótimo filme para a gente – a gente que não estava preparado para ponear ele. Mas o tempo passa, a gente aprende a gostar da boa e velha pancadaria, de króvi saindo das rots. Króvi espalhada na tela, de deixar a gente spugui. E volta praquilo que antes era só violência. Volta pra Laranja Mecânica, em livro. Por que né, como a gente bem sabe, o livro é muitas vezes melhor que o filme. Tive a chance de achar uma versão lindona do livro, com conteúdo extra, capa dura, laranjinha laranjinha, ilustrado, bem editado, feito com o maior amor e carinho, com cinquenta por cento de desconto. Fiz até, olhe só, um vídeo pra mostrar a belezûra. (Cabe um Obs.: Ignora o som, o tamanho e tudo o mais. Foca no livro).

Como vocês já devem saber, trata-se de um Personagem que é “reformado” contra sua vontade, pelo governo ditatorial, numa Rússia nonsense. A narrativa é toda em primeira pessoa, então a gente sabe exatamente pelo quê passa o Protagonista, Nosso querido Alex, do jeito que ele quer que a gente saiba. Dá cabo para a gente pensar, que um malfeitor, um pleni, mesmo que tenha feito umas boas atrocidades, não deva ser podado de sua própria natureza. Como vimos (ou como eu vi e você não, caso não tenha lido), Alex é regenerado da maneira errada. Podam, em quinze dias e à base de muita química, toda a chance que ele faça mal a alguém, provoque outro vinte-contra-um, fique pianitza por aí, mas ele não deixa de pensar nisso. A lição maior ele não aprendeu. Deceparam as folhas da malfeitoria, não a raiz. Ele não podia fazer mal a ninguém, mas não que não quisesse. Alex era um maltchik que precisava de uma lição, mas o jeito como a lição foi lhe aplicada, pelo menos pra mim, parece pior que os próprios atos. O que dá espaço para que eu pense numa outra coisa… [Isso é Spoiler? Quero dizer, tem como alguém não saber a história de Laranja Mecânica?] Anthony Burgess arrancou o capítulo vinte e um de seu livro, que na minha edição, contém. E dá para entender por que ele faz isso com o último capítulo, pois com ele, dá um final muito, mas muito Disney. Tudo termina no livro, como na política brazuca: em pizza. Metem-lhe panos quentes e vão todos para a próxima grande burrada que vai chocar o mundo. E isso, num livro que começa metendo o pé na porta, me parece sacanagem. Meio que água com sakar. Se eu fosse ele, não teria feito diferente. Mas sabe como é, o cara morre, tudo o que ele cria vira o máximo…

Em todo canto, há uma referênciazinha perdida de Laranja Mecânica. Em Denver, Colorado, uma Banda de Nome Devotchka. My Chemical Romance fez um ensaio inspirado no visual de Kubrik. David Bowie (pois é…) usou do filme para criar o tão famoso Ziggy Stardust. Até Rihanna (!!) bebeu dessa água. E Ramones, fez uma música em homenagem ao carro roubado por Alex e seus druguis, o Durango 95. Herkowitch, em 2011, um desfile com o visu do filme. Sobre a tradução de Fábio Fernandes, eu que não sou dada à tradução, entendi como um puta trabalho. Ele se deu ao trabalho de facilitar para leitores daqui até as gírias que Alex usa e eu copio muito porcamente nesse post (Cabe comentar que Burgess era linguista). Na edição que chegou até mim, há um apêndice do próprio tradutor, onde ele explica todo o processo de re-criação das gírias. Eu, de novo, que não sou dada à tradução, entendi como um puta trabalho. Só acho que ele deixou muito esmiuçado, mastigadinho pra gente. Usava um vocábulo como “Kartofel” e ao lado, explicava com um “(ou seja, batata)”. Pô, eu tava cagando se alguém não me entendia e olha que eu era uma Nasdat bem bobinha, nunca ataquei vekio na rua, que lesse sobre cristalografa, tirado da biblio. Burguess inclusive, detestou o que fizeram com as gírias dele, dez anos depois de criar O Laranja (em 72)  organizando-as num glossário, como esse aqui que eu vou fazer:

Devotchka: garota
 Litso: Face/rosto
 Ponear: entender
 Króvi: Sangue
 Rot: Boca
 Spugui: Apavorado
 Pleni: Presidiário
 Vinte-contra-um: Estupro (essa foi fácil)
 Pianitza: bêbado
 Maltchik (isso é do russo mesmo, aliás): garoto
 Sakar: açúcar
 Druguis: Comparsas/parceiros
 Nasdat: adolescente.
 Vekio: velho