O zen e a arte da escrita [Trabalho, relaxamento, não pense!]

Você olha para um homem como esse e não pensa na seriedade dele – não! Não, pois nessa foto ele sorri. Comprei-te em 2011, mas não te li. Fiquei sabendo de tua morte em 2012. Você morreu e só depois te conheci. Ao saber de tua morte, fui a Fahrenheit e pedi desculpas. Você merece mais, Bradbury.

Li uma matéria do Xico Sá, com título “Como perder a frescura e virar um escritor” e me interessei pelo livro indicado, O Zen e A Arte da Escrita. De ontem para hoje, comi com doses de café fraco (e ruim, ao melhor estilo Camila), chorando sobre o texto algumas horas. Ray soube tirar de mim o que há tempos estava lá.

Não tinha nada de imaginativo, no texto de um homem que construiu os contos em cima da própria imaginação. Era real e cru e se ele não escreveu esse livro, ou esses pequenos textos somados a capítulos, com o coração, seguindo pelo caminho suntuoso e estradas de ferro até seu próprio eu, não sei mais ler.

RE-escrever a mesma história há mais de dez anos, refinando uma pedra até chegar até o que ela é hoje – mas não posso chamar de jóia por que né, ainda não tô nesse patamar – Ray tirou minhas culpas e meus medos. Eu não sou boa hoje. Mas se não der certo o que estou tentando fazer, não tem problema, ele me diz. É só ir lá e fazer de novo. E de novo.

O segredo da escrita está em sentar a bunda na cadeira e definhar. Em esperar o coração ficar bem pertinho da caneta e esperar que ele saia pela tinta. Bombeie sangue para dentro do tubo e depois escorra pelo papel. O velho Buk já falava isso, que escrever era sentar e vencer. Em só se levantar derrotado pelas tintas, pelos editores de texto, derrotado por você mesmo.

Entendi, somando esses parcos anos, que escrever é estar mais nu, que pelado. É abrir o peito e gritar para o mundo – OLHEM!! Olhem cá, vejam o que sou, olhe esse coração grande, esse sangue que se esvai, essas entranhas que se mexem. OLHEM!

Borges se pergunta: Por que a gente publica? Ora, para parar de escrever.

O livro do Ray – foda-se, um cara que se abre inteiro para me mostrar o caminho certo não merece impessoalidade, não merece que o chame de Bradbury. – é como se ele pegasse aquela garotinha que sentava na escrivaninha da mãe com caneta e um caderno velho e falasse “Olha, daqui pra frente vai só piorar, mas você sabe que pode fazer isso, não sabe?”.

É Ray, eu sei. Eu entendi. Eu posso. E engraçado, aquela garotinha fugaz e sem vergonha, espoletinha que só ela, permanece a mesma, aqui dentro. Com a mesma fome pela escrita, que anos antes. E sabe, acho que não vai mudar.

Pelo menos, espero que não.