Fahrenheit 451 – Ray Bradbury

Dizer que eu tenho colhão (metafórico) para resenhar livros é sacanagem. Eu não faço isso, tampouco pretendo. O que faço aqui é aquela picaretagem malemolente de dizer o que me agrada e o que não me agrada na obra. Estando de férias, estou fazendo umas leituras que estão me esperando tem um tempo. Caso clínico é Fahrenheit.

Fiquei sabendo da existência desse por meio de outros livros que até já resenhei (daquele jeito). E quando comprei fui arrastando. Sempre tem aquele livro que passa na frente. Hoje foi dia dele.

Se trata de uma distopia sobre um futuro em que as ciências humanas de nada valem. Pegue uma obra importante, faça um resumo, esmiúce, mastigue, facilite para as crianças. Depois, faça-o novamente. Até não sobrar nada. E então o que se tem? Do resumo do resumo do resumo? (Não minta que você leu a todas as obras que as professoras do colégio lhe mandaram ler) Que importância tem a obra original, se o resumo desta já existe? Tudo o que se tem para saber sobre tal obra e tal autor já foi facilitado para que qualquer jumento com educação básica consiga entender. Começa a queima dos livros. A caça às bruxas leitoras. Aos feiticeiros de naquim.

É aqui que está o protagonista, Guy Montag, um bombeiro. Que ao invés de apagar o fogo, inicia-o.  É a patrulha do livro, que é chamado por qualquer vizinho bisbilhoteiro que se mete, sem ser convidado, a uma biblioteca proibida.

Montag infeliz com  sua condição, mas sem tomar ciência dela, conhece uma moça que ainda dará dezessete anos, Clarice. E Clarice, sem a obrigação do trabalho e vinda de uma família de possíveis leitores, observa. Para para colher o que seu bairro tem. Faz coleções de borboleta, pergunta às pessoas da rua se estas são felizes. É assim que se conhecem, inclusive. Vai ao psiquiatra pois pensa demais. Gosta de fitar o nada e pensar, mas não conta ao seu analista quê exatamente pensa.

Clarice risca a fagulha em Montag. Ela some. A patrulha dos Bombeiros, Montag, Bealey – seu chefe – e mais dois outros vão à casa de uma senhorinha. Esta possui livros, uma grande quantidade. Queima-se com eles. Com a casa cheia de querosene, solvente este jogado pelos próprios bombeiros, ela acende o fósforo. Voltam em seu caminhão sem dizer palavra. Que magia têm os livros, que está escrito neles que uma senhora prefere morrer, a viver sem os seus?

A nós, leitores e amantes, não nos parece uma causa tão estranha. Em alguma parte mais para frente, um professor universitário chamado Faber vai dizer a Montag que de fato, o físico dos livros, sua composição – capa, páginas, contracapa – não são o importante. Importante está no que um livro pode fazer a um homem. Quais curiosidades podem criar num homem, que provido de todos os prazeres e todas as diversões, não tem contato algum com eles?

Se por um lado Montag está consciente de sua ignorância, sua esposa não. Ela e sua “família”, seu televisor que fala diretamente a ela, que é toda a fuga que precisa. Percebe-se até pela linguagem da moça, totalmente rasa.

A quem ainda procrastina, que dê-lhe uma chance. A quem tiver uma oportunidade, recomendo. Parece um hino muito bem entoado, com suas pitadinhas ficcionais, sua dose de mistério, em favor dos livros. E também um tapa na cara àqueles que como eu, colecionam estantes e estantes de livros, sem que dê a todos eles a mesma chance de ser lido. Numa outra oportunidade, Bradbury diz que pior que queimar livros talvez lidos, é negligenciar aqueles das estantes nunca lidos.

E se você for ler, ou já tenha lido, veja Montag como o fogo e todas suas facetas. Creio que o Autor soube muito bem comparar o personagem ao elemento. E, se alguma vez você se lembrar, volte aqui para comentar.

Você não tem que queimar livros para destruir uma cultura. Faça que as pessoas parem de lê-los.

Agora aqui vem a parte que me irritou profundamente. Àqueles que estiverem procurando uma resenha, acho que esta acaba aqui.Na Coda, que eu não sei se é comum a todas edições ou se especial desta, Bradbury vai ser aquele cara que brada contra o Politicamente correto. Em suas palavras:

Eu concordo com isso. Ninguém pode tirar do autor o que é do autor, nem aquele editor que vai tirar uma vírgula e fazê-lo vender o dobro. Entendo que quando se cria algo, ninguém tem o direito de modifica-la. Mas veja, se você cria uma obra, espera-se o máximo de alcance. Você reza para que depois de cem anos após você mesmo, que ainda te lerão. E que suas palavra sejam úteis. Não lembro quem diz isso, mas um bom escritor transcende sua época enquanto o pequeno se atém a ela. Se em 1950 era comum que peças fossem encenadas apenas por homens – como já o foram nas tragédias gregas, não se pode esperar que isso se repetirá pela eternidade, tampouco que sua obra imponha que a sociedade lhe aceite por sua grandeza.

Ao passo que a Obra é do autor, a sociedade não o é. Ao passo que o escritor vai além da própria época, ele não pode negligencia-la. Ainda mais sobre minorias! É fácil pegar uma parcela já oprimida da sociedade e esquecê-la em suas obras, a maior parte da sociedade já faz isso. Você, como escritor, formador de opiniões, tem o dever transformador de homens. E não pode fazê-lo completando aquela premissa que já paira nos homens feitos, de que as minorias são menores, que por mais que berrem, não serão ouvidas.

Ele enquanto homem, branco, pai de duas filhas, largamente traduzido, sequer poderia conceber obras que ignorassem parcelas importantes da sociedade.  — Não, isso não acontece em Fahrenheit, uma vez que há Clarice e também a esposa-quadrada. Mas essa coda fechou o livro [fantástico e tudo o mais] com uma chave de merda.