[Resenha] Uma mulher no Sci-fi???

Vencedor do Hugo Awards de 1970, competindo contra o SlaughterHouse-five de Curt Vonnegut, (Matadouro 5), em português. “A Mão esquerda da escuridão” de Ursula K. Le Guin figura entre os meus melhores deste ano!

Li, em resenhas do Skoob que uma pessoa “sem querer ser machista, este livro só poderia ser escrito por uma mulher”. E ele tem razão para sempre! Só uma mulher para ter tanto tato e tanta lucidez para tratar de alienígenas que não sejam asquerosos humanóides, ou que não seja sobre a invasão dos mesmos. Na temática me lembra um pouco Cavernas de Aço, de Asimov.

Genly Ai, um terráqueo dos trópicos, “escuro como a terra”, vai em missão de paz a um outro planeta. Quer fazer parcerias com esse outro grupo, para fins de evolução. E vai só, sem frota. Ele, um estrangeiro, em terras novas. Que, apelidado de “enviado”, representa também uma ameaça.

Capa
Capa Lidja!

A interpretação que dei a essa lindeza passa longe do arquétipo de ficção científica. Mais parece uma coleção de tipos, de raças. Embora não trate vastamente de muitas sociedades (todas, inclusive, Monarquias), trata com intensidade das diferenças. Da estranheza de um corpo humanóide sem genitais, andrógino em totalidade senão por uma fase de Kemmering, onde dependendo das vibrações do momento, pode se transformar ao que o terráqueo chama de homem/mulher. E só pelo fato de não ser uma sociedade voltada aos genitais, se vê a diferença tanto no físico, quanto no mental. Um rei pode ficar grávido e lamentar a morte de seu recém-nascido pelo resto da existência, como tem-se notícia que as mulheres tenham feito.

Uma criança não brinca de boneca ou de carrinho, pois não tem a separação. São só “pessoas”. O genital não dita. E as crianças sequer são criadas pelos pais, o Lar, o conjunto de dormitório, o Estado é quem cuida das crias. Todos são tratados como irmãos e são todos criados juntos. O que cria um conjunto de adjetivos de um povo muito maior que a orientação guiada pelos pais.

Contra
Contracapa e um migo do lado

Também, por serem todos andróginos e assexuados, o casamento é monogâmico e como pela religião, só se casa uma vez. E você tem dois “homens” apaixonados e não pode dizer nada, pois eles não são homens. Engraçado é que andrógino dá a sensação de não-sexo, mas ao mesmo tempo você imagina um ser masculino, só que sem seu adereço. Então, conforme vai passando as páginas, a gente tem amor entre dois “homens”. (Talvez, por causa da língua. “Um homem” é uma pessoa, “uma mulher” é um gênero).

Eu gostaria de chamar isso de ficção social, mesmo que se trate de outros planetas, outras constelações e que se tenha dados científicos. Ela descreve pessoas, embora seja uma palavra de significado restrito, estou chamando essa raça de andrógino de pessoas. Ela trata daquele bom e velho “E se?” que guia a todas as ficções. Como a autora mesmo vai dizer na introdução, não se trata de “escapismo” da realidade, mas da descrição.

Ao contrário de “Fundação” do Asimov, que evita a guerra, mas usa da ameaça de cinco em cinco minutos para evitar mais uma crise, a guerra é tratada aqui como algo nocivo e desnecessário. Coloca o medo num patamar de necessidade e um sábio conservador da vida, enquanto a guerra é um bárbaro ignorante.

Posso dizer, em defesa da Autora, ela me ganhou quando, ainda no começo, trás de volta leis gregas que aparecem na Odisséia e num sem-número de escritos. A lei da hospitalidade: se um forasteiro bate à sua porta, é de bom tom que você o acolha por pelo menos três dias. E isso parece uma lei universal.

O problema maior da trama é que demora muito para pegar velocidade. Você encarca nas primeiras sessenta páginas e não consegue pegar ritmo. Se isso fosse um carro, demora demais para pagar no tranco e deslizar por aí. Depois, claro, é só amor. Mas até virar amor… Outro problema também é que nesta edição tem erros bobos de revisão. Coisas que o editor de texto mais chinfrinho  daria jeito. E você, já não muito apaixonado pela história, fica muito brabo. E não tem desculpas que “foi feito no LaTex”, pois até ele arruma essas bobeiras.

Contudo, entretanto, porém e afins, o que vai importar aqui não é a parceria que Genly procura fazer, mas o que ele faz até chegar lá. Pelos trancos e barrancos, pela, como eu disse, coleção de tipos. E a incrível mania que têm os reis de se parecerem mesquinhos, individualistas e loucos.

Esse livro, para os meninos que adoram ficção e que estejam em idade escolar, é minha indicação. Para que ele saia da caixa de “heróis” e não se torne mais um sujeitinho que acha que mulher não tem espaço nas histórias de fantasia. Do tipo bem comum que chama de attwhore aquelas que estão colocando seu pé na borda da piscina funda e até lamacenta, da sci-fi.