Nem por um segundo,

Essa sou eu. Correndo. O mais rápido que posso, como se alguém estivesse atrás de mim. Como se eu fosse morrer, se parada. Essa sou eu. Correndo. Correndo tanto que quase caio. Esse terreno irregular. Só nas competições olímpicas é que se encontra um terreno bom, asfalto liso. Todo mundo te olhando esperando você vencer, te julgando, observando suas trotadas. Fora delas, você corre e é tido como louco. Por que corre. Enquanto todo mundo anda. Anda depressa, quer fazer as coisas rápido. Mas não corre.

Essa sou eu, correndo. Correndo tanto, que olham para trás de mim, esperando um carrasco com o dobro do meu tamanho e duas vezes meu peso. Um carrasco a quem eles possam dar um motivo para eu correr. Só que não tem, não tem ninguém, estou só e não consigo parar. Pior que isso, não quero. Não quero, por que se eu paro e examino, se eu paro e olho o cenário, esmaeço. Sumo. Se eu paro e olho à volta, se eu, mesmo que só por um segundo, paro e observo de onde vim e por onde vou, nunca mais corro. Deslumbro-me com a paisagem, sou dessas.

O caminho não importa. Não importa os planos. Correr é uma injeção de adrenalina, você vai se enfiando por meio dos arbustos, um passo de cada vez. Vai descobrindo a passagem enquanto se está nela, depois a esquece. Sem tempo para cartografias.  Correr é muito mais exercício interno que externo. Quando me olham, é mais externo que interno. Ninguém entende por que eu corro, só corro e não consigo parar. Não quero. Não vou, por que um dia – e vai chegar esse dia – nunca mais poderei correr. As pernas não aguentarão. O fôlego vai me trair e eu vou ter tempo de olhar para trás. Ver se o caminho foi bonito. Ponderar os lances.

Quando eu não mais puder correr, aí eu vou medir. Aí serei obrigada a planejar os passos, a medir as consequências. Até lá, eu vou correndo por cima de tudo isso. Vou sentindo os galhos açoitarem o couro, quente demais para reclamar da dor.

E quando chegar o dia, quando finalmente chegar – e vai chegar, chega para todo mundo – que o tribunal à sete palmos seja benevolente comigo. Que esqueça os caminhos que cruzei, as direções erradas, os corta-caminhos. Mas que não se esqueça, jamais.

Que eu não parei. Nem por um segundo.

  • Betânia

    Li e reli antes de deixar o comentário.
    Já disse que não sou uma boa crítica.
    Mas vou falar mesmo assim… Gostei muito desse texto.

    Continue correndo. Porém não deixe de, às vezes, correr em círculos pequenos (pra não precisar parar). Só pra assim poder correr de olhos fechados e poder respirar. Respirar fundo. Sem precisar olhar ao redor. Apenas respire fundo. Depois abra os olhos e volte a correr enlouquecida e desenfreadamente enquanto os galhos açoitam o seu couro.

    Quanto aos últimos parágrafos… Que assim seja!

    😉