Dom, talento e Arte

Vai parecer um grande chororô deslavado. Na intenção não é, mas talvez fique.

Esses dias, alguém me disse “Camila, tu tem um dom de Deus”. Acho que ela quis se referir à minha escrita. Eu entendo que tenha sido um elogio, a gente sabe disso. Fiquei lisonjeada, claro, mas fiquei pensando: Por que Deus faria isso comigo? Porra, nem pra igreja eu vou mais. Nem comida para os pobres eu distribuo. Por que isso seria um “Dom”? E por que eu?

Daí eu comecei a filosofar (dessas filosofias de banheiro, sabe?). Como Deus daria uma coisas dessas pra mim, mas não daria para todo mundo? Se somos iguais, então essa porcaria que me acompanha (e por dias, faz mais mal que bem, o fato de que eu pretensamente um dia quero que me chamem por escritora) não é um Dom. Qualquer fulano que se meter a besta, que pegar uns livros na mão e depois inventar de escrever os próprios, faz um trabalho melhor que o que eu tenho feito. Não é Dom. É outra coisa.

Vão dizer que é talento. Conheci umas pessoas que são tão iludidas por essa palavra “Talento”, que se envolvem numa bolha, se acham especiais demais e se distanciam. Gostam de se chamar de “Gênio Incompreendido” e ficam com aquela cara esnobe desgramenta, pintam lá uns quadrinhos bestas, se vestem de cinza e óculos de aro grosso e saem por aí fazendo workshop. Caralho! É isso o talento, então? Uma falsa-verdade de que eu sou melhor que alguém? Criar coisas com a pretensão de ser visto, ouvido e amado só pelas coisas que saem das minhas mãos? Ser melhor que os outros por que eu acho que mereço? (Ou pior, por que outros acham que mereço?). Se o que tenho é talento, então os outros “talentosos” estão errados ema alguma coisa. Por que no âmbito de “artistas desconhecidos” que eu conheço, eles se entopem de maconha e usam a “liberdade de expressão” pra ficar entupindo minha orelha de lixo. Eles não dizem “não”, acreditam no “amor livre”, sorriem para outros artistas desconhecidos, mas no fundo se sentem melhores que eles.

Tradução: “Advogados, médicos, encanadores, todos eles fazem dinheiro. Escritores? Escritores morrem de fome. Escritores se suicidam. Escritores enolouquecem”. – C. Bukowski.

Talento é a palavra mágica que a gente usa para fingir para si e para os outros que somos melhores que alguém. Dom divino e Talento não tem muita diferença. É tudo uma desculpa que a gente usa para fingir que somos melhores que nossos leitores/espectadores/os loucos que têm o dom da paciência (e paciência é mesmo um dom) para aguentar a gente e essas besteiras que inventamos. Talvez talento perca um pouco da carga cristã de “presente especial” que tem o dom, mas é igualmente espectral – ninguém sabe de onde vem e o que fazer com isso.

Gosto de pensar que não é nada de especial. É vontade, apenas. Aristóteles chamava a poesia dramática por “imitação de ação”. Só para os modernos que tem uma coisa intrínseca do ser, impresso no poema. Uma coisa romântica de que quem escreve se coloca no poema, se explica de um jeito que só um poema é capaz de descrever. Eu não sou poetisa. Aos meus pormas inerentes eu dou descarga. Tem algo muito íntimo meu nisso tudo que escrevo, mas o que escrevo não é reflexo de mim. Não me contempla. Seria muito narcisismo escrever por trezentas páginas e achar que aquilo é sobre mim. Não é. Não é dom divino, nem talento. É vontade. Escrevo ou perco a cor. Tenho sido mais feliz só por que voltei a atacar o teclado. Não quer dizer um ser divino veio aqui e me deu tudo isso. Acho que não é dom, nem talento. É a vontade de observar. Abro meus olhos e deixo o mundo entrar nele. Remôo o que o mundo me deu e devolvo como posso. Escrever tem sido isso, não mais que isso, nem menos que isso. Observar, mastigar e cuspir. O resto… o resto é reação do mundo da interpretação que dei. Só isso.

Invocando Aristóteles ainda, arte para mim não é o que eu faço, mas o que o mundo faz com aquilo que fiz dele. É a catarse, a lavagem e a purgação da coisa que eu resolvi cutucar. Arte é contato. Quando o leitor encontra o escritor. Quando os dois sentem e pensam da mesma forma. Talvez eu demore muito para chegar lá, a ponto de cutucar meu interlocutor num ponto que o faça sangrar (metaforicamente, claro). Arte pra mim, é cutucão. A primeira vez que eu vi “Os Retirantes” na minha frente, o fato de eu ficar sem reação, prostrada diante de uma tela imensa, acho que dois metros por dois metros de pura tinta, aquilo foi um momento de arte. Não esqueço até hoje. Foi como se eu conhecesse o homem por trás da obra e como se ele me conhecesse. Aquilo foi arte. Aquilo é o que eu chamo de Dom Divino, por que foi como uma ligação com um cara morto.

Até eu conseguir chegar a um décimo do que “Os Retirantes” fez comigo, é só vontade. Até eu morrer e cutucar os outros, é só necessidade. Algo que você persegue e persegue sem nem entender direito o que diabos você persegue. Só sabe que não sabe parar. Talvez o cutucão venha só quando eu der meu último suspiro. E aí eu vou entender o que quer dizer quando chamam o que eu faço por “Dom”.