Você só pode esperar falhar melhor

Você começa a escrever nunca sabe porque. Só ataca o coitado do papel que nunca te fez nada e vai. Copia teus ídolos, arruma botinas novas, e vai. Vai longe, traz de volta uma parte de mim que nunca soube que tinha. Coloca você-eu em movimento. Me/nos coloca a rodar. Você começa uma história nova, uma briga nova, nova batalha. Tem que largar das velhas armas, ficam as técnicas, as velhas, antiguíssimas, e aquelas que você aprendeu no combate passado. Tem de alçar novas, ir em busca. Usar de novo as mesmas armas não me apetece. Menor graça brigar com um inimigo combatido (e, modéstia de lado, vencido).

Cada vez que um personagem te invade é como conhecer uma pessoa nova. Ficar cheio de dedos, sem saber como conversar, como ir além, como tirar dele uma verdade que você mesmo não tem. É ser daquele tipo de psicólogo que não diz, espera que dizem. Não sei se tem psicólogos assim, minha terapia é o papel. Sou filtro entre aquilo que vejo e daquilo que escrevo. Membrana ridícula de carne que se deixa passar pelo mundo, olhos demais e bocas de menos, mãos de menos e pensamentos demais. Não faz, só olha. Passa pela vida com metade das ações e o dobro das expectativas. Engrandeço enquanto escrevo, diminuo enquanto ajo. Agir, ir lá e fazer acontecer eu faço aqui, papel, caneta e coração. Pretensões mínimas de fazer (nem ser).

Escrever é para os fracos. Ninguém que seja forte o bastante se esconde. Sentar a bunda e colocar o peito para fora, estirar a língua e lamber o mundo. Provando do gosto sem saber como descrevê-lo. Olhar lá fora com os olhos de amanhã e as mãos de ontem. Nada disso faz sentido. Nem eu.

Supor que se esteja correndo, só que sentado. Seu cu criando raízes, sua mão criando calos. O corpo acumulativo, mil peças, duas vezes seu tamanho. Aniversários, casamentos, datas especias. Escrever é para os fracos. Os fortes estão ganhando terreno, conquistando ilhas, matando um leão por dia. Escritores? São os livros parados nas estantes, os acumuladores de pó. Vem cá, nega. Tira aqui um pedaço do fígado meu e coloca ali parado no teu móvel, no seu e-book, seu celular, ipad, sei lá. Eu regenero. Eu tenho mais de onde saiu esse.

Estou na fase da regeneração. Cada leitor meu tem uma réplica perfeita de um naco do meu corpo. Conheço uma nova personagem que não me diz nada, não sabe que eu existo. Escrever é contato. Ela age, eu observo. Calada. Sem saber como coloco as palavras que ela me dá, sem saber se ela vai gostar do que digo sobre ela. Sem saber que ela está no mundo e eu não. Como gêmeos bivitelinos no útero da mãe. Que merda de dia esse, o que eu inventei de criar raízes.

Minha coleção de fígados alheios começou quando eu tinha dez anos. É uma história, um conto que reúne pessoas ao redor do mundo. Comecei arrancando dos outros, ainda faço meu fígado a partir do corpo alheio. É nisso que se trata o nem-tão-grande assim, ofício de escritor. Pode um aborto-concebido, aos vinte e quatro anos de vida, se auto-proclamar escritor? Pode não. Que nome eu tenho? Que nome que me deram?

Eu não tenho um topo para atingir. Não tem limite, um ponto de chegada. Nem balcão de informações. Só tem a mesma mania, a velha mania, (aquela, a velha). A cada livro que termino é um pico alcançado. Escaladora-amadora, nenhum impulso de ser profissional. Demorei a perceber isso. Me publicarão mais tarde? E eu vou comer de vender meu fígado e vai ser lindo, mas… Ainda vou ter que me desfazer e refazer, na vã esperança de falhar melhor. Não cometer tantos deslizes. Ir além, facas melhores, mira telescópica, batendo e apanhando de uma nova personagem que sequer sabe que eu existo. Ela tem uma M110 apontada para mim no prédio aqui atrás de casa e é ela quem me olha. Esperando meu movimento para ela poder agir. Não sei quem vai matar quem.