A Crise, a Literatura e a Droga do Final Feliz

Hoje, domingo, teve votação do impeachment. Não teve Faustão, nem fantástico, nem nada. Só facebook, uns reclamando com os outros, chaves no SBT. Não teve para onde fugir. Vizinhança soltando fogos, todo mundo com aquela responsabilidade cívica que só bota em prática na urna e depois fica na briga “você votou em x, eu não”. Esquece o fato de que no livro de história você também vai aparecer como POVO, não com nome e RG. Estaremos todos impressos nos novos livros de história com o mesmo nome.

Enfrentamos um belo de um jogo de futebol. Não sei de que lado estou, do sujo, ou do mal lavado, mas isso não interessa. A gente busca por um lado para poder lutar, ficar contra esse, ou aquele. Definição preto-no-branco, aquilo é certo, aquilo é errado. Ignora todas as nuances e os contextos. Quem quer preto-no-branco e errado-certo desconsidera que não tem ninguém certo. Nem eu.

Com o que nos afeta diretamente, gente perdendo emprego, lojas fechando, a gente eriça raiva. Não deixa fluir o bom-senso de todo dia. Eu também estaria muito brava, se eu trabalhasse CLT e fosse demitida por conta do atual governo. Entendo a raiva de quem não tem comida na mesa, nem o conforto que tinha outrora. Coloca, na oposição ao governo, no Cunha e no Temer, a chance de um país melhor, de voltar a ter emprego, de voltar a sorrir, de dar presente para o filho ainda no natal deste ano. Deposita no gato toda a esperança que devia guardar para si, esquecendo-se que é rato. Que a nossa função na cadeia alimentar é baixa, primária. Não dá para confiar no predador. (Mesmo que este predador nos pareça bonito, bem-falante, carismático e protetor. Acredite, ele não é).

A necessidade em algo para acreditar é tamanha nestes tempos, que eu li, enquanto alguém que escreve e produz conteúdo, mais de uma vez, que os livros são a fuga. Não tem fuga da realidade. Livro não é uma droga viciosa que te coloca fora do real por alguns instantes. Livro é aquela ferramente mágica que te dá outras percepções para encarar justamente aquilo que você está fugindo. Não é para você se esconder do mundo não, meu chapa, é para te dar coragem de lutar.

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Se esconder, você vai até conseguir por um tempo, mas uma hora, experiência de quem já fugiu muito, uma hora o livro acaba. Quando ele acaba, você faz o quê? Corre para outro? E vai vivendo nesta ponte, de livro em livro, emendando tristeza e afogando-as todas em páginas escritas por alguém mais perdido que você?

Quando eu escrevo, eu acho um jeito melhor de lidar comigo. É isso o que eu quero que quem me lê, também ache. Um jeito de lidar melhor consigo. Que quebre alguns preceitos antigos, alguns medos, encontre nas páginas (e não em mim, por que né) algum jeito de saber lidar com a vida.

Para quem está em dia com os capítulos do Lipe e da Dê, eu coloquei um longo tempo de separação entre os dois. Houve motivo para o Lipe, motivo para a Dê. Tudo trabalhado na Nuance. Tudo nem cem por cento de um lado, nem cem por cento de outro. Houve erro e acerto de ambas partes. Teve leitor que tratou do casal como tem tratado da política, como tem tratado o futebol. Lipe x Dê como Fla x Flu, como PT x PMDB. Quem se beneficia com a separação? Quem se beneficia com o Lipe perdendo ou com a Dê perdendo? Por que é que tem que ter perda, meu deus? Por que é que não pode haver perdão e amor, as duas coisas que eu acredito mais do que acredito em mim?

E tem o outro lado, também. A necessidade de eu dar a eles um final feliz. Por que tudo está errado. Tudo. A Política, a educação, a saúde, a relação parental. Tudo tá uma merda. Alguma coisa precisa ser feliz. E que sejam os livros, oras!

Desculpa, isso não é Spoiler. Não estou dizendo que vai ter final triste. Não é isso. O que eu estou dizendo é que o Livro, seja qual for, não é obrigado a sanar uma necessidade do leitor. Livro não é comida para matar fome. Livro é instrumento. Cultural, de instrução, de livre-pensar. É o debate que gera dentro do grupo, também. É o movimento de ida-e-vinda entre eu, alguém que escreve, e o leitor, o pensante que lê e debate daquilo que leu. Livro não é baú.

A viagem dentro do livro é linda, é ótima, eu adoro esse tipo de barato que dá e até tive umas bads, mas vem cá, livro não acaba aqui. Depois da bad tem o erguer-se e tem o cair. Arte mais do cair, do que do levantar, se me permite dizer. O Livro só é bom quando te deixa ruim consigo. Quando você vê que aquilo que está no livro não reflete aquilo que você vive.

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É para isso que eu escrevo. Para fazer cair. Ver você tropeçar na realidade e mudá-la. Eu mudo a minha assim, também. Os Ferreira não são esse tópos de amor e carinho do jeito que são por acaso. O são porque eu quero que você e a sua família (e eu, e a minha) sejamos os próximos Ferreiras. No mundo tem espaço para mais de uma Fernanda e mais que um Rodrigo.

Em cada esquina pode ter um Lipe e em cada esquina, que uma Dê tome coragem para ser quem ela quiser. Só não vá descontar em mim, ou em quem escreve teu destino, a droga do Final feliz.

Para o bem, para o mal, a culpa do final feliz é toda sua.

  • Priscila Maria

    “Quando eu escrevo, acho um jeito de lidar melhor comigo”, fazendo a gente se entender através das palavras que as vezes não conseguimos achar, né? Conversei ontem com uma amiga/leitora e disse: “queria escrever como a Camila…”. Engraçado isso, né? Quando a gente fala, a gente se escuta. Ela acabou me explicando que cada um tem um jeito peculiar de usar as palavras e se transbordar por elas. Depois pensei e no final concluí que não quero escrever como a Camila porque senão a Camila não seria única e tão admirada por mim. Por muitas vezes concordando ou não com seus escritos, o que me conquista é a autonomia e a crença que você tem naquilo que escreve. Todo meu afeto e gratidão por sua nobreza e sinceridade <3

    • Camila Braga Marciano

      1. Que gostoso ler alguém dizer: “quero escrever como a Camila”.
      2. eu realmente acredito naquilo que escrevo. são as minhas crenças. Faz de mim eu!

      Obrigada por tomar um tempo e vir aqui comentar, Pri. Aos poucos, vejo que você vem fazendo os melhores comentários, as tiradas mais inteligentes e quando vejo, me pego pensando naquilo que você diz. Obrigada por ler e por comentar!