O Próximo Einstein Vende Cartões C&A

Em qualquer lugar que você vá, que fale sobre algum tema específico, vão aparecer especialistas. Quando o assunto é sério, o que você quer e o que procura são especialistas. Gente que vai te explicar bonitinho, por A e B o que é que você não entende. É para isto que serve a droga do especialista. É por isso que nós damos tanta autoridade a um fulano que fala daquilo que nós queremos conhecer – ele é O Especialista.

Se a pessoa do Especialista tem sorte, ele escolheu ser especialista. Estudou, primeiro de tudo. Enfrentou alguma escola de renome e publicou um monte de artigo. O Especialista teve duas coisas: Tempo Livre para Estudo (a tal da Skolé, do grego) e privilégio. Ele provavelmente não teve que trabalhar oito horas por dia, mais enfrentar quatro horas de presença obrigatória na faculdade, sem contar todo o estudo por fora – porque, convenhamos, graduação não faz ninguém virar especialista.

Por anos, toda sorte de especialista, queira o fulano pós-moderno ou não, foi de um único arquétipo. Homem e abastado. A maioria deles. Os que não eram abastados, encontraram um messias, os que não eram homens, foram ocultados por outros homens. Digo isto não com a intenção de menosprezar os especialistas, eles têm suas qualidades, eles são reconhecidos por seus méritos, eles têm direito aos seus nomes forjados na história.

Mas quanto de especialista e de ideia inovadora a gente perdeu para um trabalho de repetição ad infinitum, só porque este possível Einstein das Manufaturas se perdeu em meio ao vapor e às dezesseis horas de serviço em pé?

E se a gente nao tivesse mais que trabalhar pelo dinheiro, o que você teria feito? O que você faria? E se a gente nao tivesse mais que trabalhar pelo dinheiro, o que você teria feito? O que você faria?

É isto o que torna um especialista o que ele é. O tempo que ele ganhou quando ele não precisou se sujeitar a acumular capital para outra pessoa. O tempo que ele ganhou enquanto não esteve trabalhando em minas de carvão.

O que o especialista seria, se ele se reduzisse a um caixa de mercado? Ele teria aguentado, as dez horas de trabalho, mais algumas horas de estudo, sem contar o tempo que ele leva para ir e voltar do trabalho? Não digo isto com  a pretensão de menorizar um caixa de mercado, não é isso, mas justamente o inverso: o quanto de potencial desperdiçado a gente não coloca diante de trabalhos que não valorizam a capacidade total de um indivíduo?

É esta a minha pergunta. E se a gente abolisse o trabalho? E se a gente voltasse a ter horta em casa, a trabalhar em comunidade, derrubasse o livre-comércio, criasse o nosso próprio alimento, que grandes máquinas e que grandes empreitadas teríamos agora?

Você pode imaginar um mundo desse, onde ninguém tem que se sujeitar a outra pessoa para garantir que vá comer?

Imagina, uma comunidade de três famílias, cada uma delas criando bois e vacas para seu próprio sustento, trocando excedente com comunidades vizinhas, inventando máquinas para automatizar o nosso cultivo, o quanto de horas não nos sobraria para desenvolver pesquisas na saúde, na educação, no convívio social.

O quanto nós não seríamos mais tolerantes, se não tivéssemos que pegar trem lotado às seis da manha e o quanto não seríamos mais enganados por meios de televisão sem vergonhas que sabem que nós não temos tempo para pensar, enfiando-nos goela abaixo meia dúzia de frases de efeito e mais uma dúzias de pensamentos prontos.

Ser obrigado a trabalhar é o meio mais perigoso de Domínio Humano. Pega o cabra logo por onde dói: na fome. Ser obrigado a trabalhar é o meio mais perigoso de Domínio Humano. Pega o cabra logo por onde dói: na fome.

Escolher trabalhar naquilo que se gosta é um privilégio sim. Poder se dar ao luxo de fazer planos, de escolher faculdades que quer cursar, cursos que quer fazer. É bom que a gente não desperdice isso.

A gente só pode escolher fazer alguma coisa porque tem gente que não pode. É esta a assimetria que forma especialistas.

Quanto mais a internet é aberta e livre, mais a gente vê que não somos tão originais e únicos assim. Alguém, em algum lugar, já faz algo parecido ou idêntico ao nosso. É assim que é. Sete bilhões de pessoas no mundo e só a sua ideia é maravilhosa, única e foquinho de neve pairando no espaço? (beijo, Clube da Luta) Não, não somos. Tem mais um monte de fulano que nem a gente.

O problema é que ele te oferece cartões da C&A e você mente dizendo que já tem. O dia que este atendente se tocar que na internet tem de tudo, ou, o dia que este atendente nadar contra a correnteza do trabalho impulsivo, a autoridade do Especialista cai – e daí você vai ver um monte de floquinho de neve especialista com crise de existência porque a mamãe falou que ele não é mais assim tão especial.

E, quem sabe? O dia que o especialista e o trabalhador da categoria de base conversarem de igual para igual, a gente veja que foi uma ideia idiota este sistema que nos decepa e nos desmembra antes de mesmo que notemos que somos uma unidade.