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INSPIRED

Logo de cara você não se arrepende das coisas que fez quando vê a bosta que deu. Primeiro você fica puto. Você, primeiro, xinga Deus e o Mundo, você caça motivo e um trouxa para pôr a culpa.

Era a primeira vez desde que nos casamos que ela dormia fora de casa. Brigamos, brigávamos feio há meses. Engolíamos palavras e desaforos, dormíamos com a cabeça a mil, bufando, nós dois. Não era nem a primeira, nem seria a última crise: a diferença, desta vez, é que ela desistiu de falar e de brigar comigo, só fez uma malinha tímida e deixou, sem olhar para trás, um marido, dois filhos e a casa.

Nem chorei, nem liguei, nem implorei, fui dormir puto da vida. Dormi mal que só. Toda vez é a mesma coisa: “Rodrigo, você está trabalhando demais, Rodrigo”, “Não posso contar com você para nada, Rodrigo”, “Mimimi, Rodrigo”. Será que ela não vê que chego tarde porque preciso? Será que ela não vê que eu chego tarde e morto de cansaço, que eu só quero deitar meu esqueleto na cama e capotar? Será que ela não vê que a boa vida que ela leva é mantida com o suor do meu rosto?!

O tapa na cara nada sutil só veio na manhã do dia seguinte, seis um pouco da manhã. Com ela em casa eu estava acostumado a acordar, me arrumar para o trabalho e encontrar o café pronto, na cozinha. Como todo dia, eu me arrumei e desci, mas nada estava pronto: nem o café e muito menos as crianças.

Me deparando com a cozinha vazia e fria, sem os filhos e sem a mulher, que eu me toquei: O que é que eu vou dizer para as crianças? A mãe deles não está aqui, que porra que eu digo a elas? Não dá para inventar uma desculpa de que a mãe tirou férias, que a mãe foi abduzida, que, sei lá, ela está dodói no quarto e não quer ver ninguém. Subi as escadas de novo sem ter um pingo de “I” para dar.

— Cadê a mãe? – O Lipe, o mais velho de sete anos, mal se levantou da cama e já disparou. O Guto, de cinco, na cama ao lado, sempre muito menos funcional quando acorda, demorou para entender o contexto.

— Levanta, Filho, vem escovar os dentes, papai explica tudo lá embaixo. Termine de se arrumar, primeiro.

O Lipe escova os dentes sozinho, eu só precisei ajudar o Guto. Os dois, de escova na mão, me examinavam sem entender. Em todos estes anos em que o Lipe está na escola (e aos poucos meses em que o Guto tem a mesma rotina), eu nunca acordei minhas crias em dia de semana. Eu nunca fiz o trabalho da mãe deles do mesmo jeito que ela também nunca fez o meu.

— Cadê a mãe, pai? – Com menos paciência que a primeira vez, o Lipe repetia, depois que se sentou à mesa com o uniforme da escola.

— A Mãe precisou de um tempo para ela. – Resolvi, no mínimo de tempo que ganhei para pensar na resposta, não mentir para eles. Eu posso ser relapso, arrogante, viciado em trabalho, posso ser o diabo que for, mas eu não minto. Resolvi dizer uma verdade compatível com a idade dos meninos e de um jeito que eles entendessem – Sem a mãe aqui, – continuei, picando banana na cumbuca de bichinho do Guto – vocês ajudam o pai?

— Para onde a mãe foi? – O Guto perguntou, olhando do fundo da própria cumbuca para mim.

— O pai não sabe dizer, filho.

— Por que a gente não pode ir junto?

— A mãe volta hoje?

— Por que ela não disse tchau?

— A mãe volta quando puder, filhos.

— A mãe cansou da gente, não cansou? – O Lipe concluiu, em bico de choro, me olhando muito, os olhões enormes que ele pegou emprestados dela. Desde ontem, quando a vi fazer as malas, eu não me atrevi a chorar. Nem mesmo uma gota. Estive caçando culpados, dormi mal para cacete, nervoso, bravo de tudo.

Fato é que eu achei o culpado. Fato é que ele tem uma faca e banana nas mãos.

— A mãe não cansou de vocês. – Respondi, o nó na garganta me impedindo de falar – A mãe cansou de mim.

— Então por que ela não levou eu e o Guto junto? – Para um Lipe dividido entre mágoa e raiva, sete anos, se o castigo era para mim, por que ele sofria junto?

— A mãe tá brava comigo por que eu não ajudo ela a cuidar de vocês dois.

— Mas isso é coisa de mãe fazer. A mãe é quem cuida dos bebês.

— E o que o pai faz? – Perguntei, sabendo que esta pergunta era um tiro no pé.

O Lipe, parado com a boca aberta, me olhando enquanto eu cortava as bananas agora na cumbuca dele, não soube me responder. Ele, o tagarela da família, o espertinho prestativo ligado sempre no 220v, o mais parecido com a mãe, ele não soube me responder qual a função de um pai. Não soube responder porque ele nunca me vê fazendo nada.  Eis aqui o tapa na cara. Filho aprende por observação. Vê o pai fazendo e copia, sempre foi assim. Se a mãe é quem cuida dos bebês, o que é que faz o pai?

Meu filho não sabe o que faz um pai. Sabe que tem um, mas não sabe para o que é que serve. Não é o pai quem cuida dos filhos, é a mãe. Quem faz a comida, quem dá banho, quem brinca, quem educa, quem leva e traz da escola, tudo a mãe.

Para que então, olhando um filhote que não sabe o que faz um pai, que eu sirvo?

Para um garoto de sete anos, questões como “manter a casa e pagar as contas” não importam. Para ele, não importa quem põe a comida em casa, mas quem faz a comida, quem a coloca no prato, quem ajuda a cortar o bife. Para um garoto de sete anos, pagar as contas é tão importante como quem venceu a Guerra Fria.

— Você não sabe o que um pai faz, Lipe? – Insisti, sentindo o tapa na cara arder nos olhos.

— Você é meu pai, ué.

— Tá, mas o que eu faço? Guto, o que um pai faz?

— Você brinca com a gente, às vezes.

— Só isso?

— Leva a gente no parquinho, se a mãe pede.

— Só?

— O resto quem faz é a mãe, né – O Lipe completou, ainda sem saber direito o que responder – Os pais não podem dar de mamar, só as mães.

— Você precisa mamar, Lipe? – Eu podia ter calado a minha boca, não podia? Podia.

— Não! Eu não sou um bebê!

— Nem eu!

— A mamãe tá brava comigo porque eu deixo ela fazer tudo. – Assumi a culpa. Eu não sou homem de colocar a culpa nos outros quando vê o barco afundando. Macho que é macho assume, né? Pois então. – A mãe tá cansada de fazer tudo sozinha.

— Então é só você fazer o que a mãe faz que ela volta!

— É, papai – O Guto era o único da mesa que não tinha os olhos molhados – Faz a mãe des-ficar brava…

— Mas eu não sei fazer as coisas do jeito que a mãe faz. – De fato, não tomei café naquele dia porque eu não achei aonde aquela mulher enfia a merda do pó de café.

— Tudo bem, papai.

— Quer mais banana no seu prato, Lipe?

— Não.

— Quer, Guto?

— Não, papai.

— Pai, – O Lipe tem um jeito só dele de serpentear pelos assuntos e pelas cadeiras – não fica triste não, tudo bem ser burrinho.

— O papai não é burrinho. – O Guto me defendia.

— Ué, se ele não sabe fazer…

— Vocês não estão bravos comigo por ter deixado a mãe brava?

— Você tem que pedir desculpa. – O Lipe respondeu, ficando em pé na cadeira, na altura do meu ouvido, enquanto eu distribuía sucrilhos entre as cumbucas e punha leite por cima – Você tem que pedir desculpa e dar uma flor. Quando a Prô manda recado dizendo que eu converso muito na classe, eu faço assim.

— E Funciona? – Testei.

— Ã-ham!

— Lipe, você não pode pedir desculpa de uma coisa e depois fazer de novo, senão a mãe não acredita mais no seu pedido. – E quantas vezes eu próprio já não pedi desculpa, flores na mão ou não, dizendo que vou melhorar e não melhoro? – Tem que pedir desculpa e mudar, entendeu? Se pediu desculpa por falar muito na sala, não pode falar mais.

E isso servia para mim, também. Dois tapas na cara em menos de duas horas.  Se eu pretendia pedir desculpas, vou ter que fazê-lo do jeito certo.

A primeira crise da nossa vida foi logo depois do nascimento do Guto. Ele tinha um dia de vida, nem isso, e eu não pude ficar em casa. Foram dezoito horas de parto, ela estava muito cansada e eu não estava lá. Eram duas crianças pequenas e ela ali, sozinha. Chegou do hospital e eu não estava lá para ajudá-la no pós-parto. Só fui chegar em casa no dia seguinte e só aí que fui conhecer meu filho – é claro que fiquei com ela na maternidade, mas não muito mais depois que Guto nasceu e com as minhas feições.

Trabalhei naquela madrugada mais do que qualquer outra, acertei os detalhes e deixei meu braço-direito tomando conta do resto. Passei a primeira noite do meu filho na rua – e ela tinha acabado de deixar o emprego para se dedicar aos nossos meninos.

Aquele abandono foi o tom que tocou no resto do nosso casamento. Ela não me perdoa e nunca vai me perdoar por isso. Foi um tapa na cara dela. Sim, ela estava sozinha, eu não servia para nada e as duas crias precisavam muito dela. O que me disse naquele dia martela na minha cabeça, mesmo cinco anos depois, deitado na nossa cama, sozinho, na segunda noite que dormi sem ela. Disse que me abandonaria assim que as crianças estivessem maiorzinhas. Foi isso o que me disse. Agora o Guto amarra os próprios cadarços – era isso o que ela queria dizer por “maior”?

Depois, sem que a primeira crise passasse, veio a segunda. As duas amigas dela voltaram da Europa e não ficaram muito felizes em descobrir que a Engenheira-que-tudo-podia agora era casada e com filhos. Eu a vi sentir o gosto da derrota e o mesmo desprezo que um dia ela cuspiu para cima de outras amigas dela que largaram a carreira pela vida do lar. O Guto ainda era um bebê com dois anos e eu a vi cogitar, olhando para o guarda-roupas aberto, se era a hora voltar para a carreira em suspensão.

Eu sempre me senti um bosta de marido por ter agido como uma tampa abafadora. A Fê flamejando e eu cortando suas graças. Me culpo por não ter dado mais lenha. O segundo filho, eu sei, boto minha mão no fogo a hora que ela quiser, o segundo filho é tão amado quanto o primeiro, só que o amor que derrama sobre ele é o amor que reservou para si. Ama o filho e perde um pedaço do próprio amor, um pouco por vez.

Eu podia ter dito a ela que nós três deixaríamos tudo no Brasil, se ela quisesse fazer um mestrado na Europa. Apertaríamos o cinto um pouco, é verdade, nessa casa não chove dinheiro, mas conseguiríamos, se planejássemos tudo. Eu próprio faria mestrado na Europa também, isso teria dado uma puta guinada no meu currículo, mas eu fui babaca. Coloquei o trabalho acima dos sonhos da minha esposa e não comentei um “a” sobre isso. E ela, coitada, não teve coragem  de me pedir. Sabia que o marido bitolado em trabalho jamais aceitaria tal coisa. A Fê de antigamente teria me dito sua vontade e eu, bobo, correria para tirar o visto. Podei tanto a minha Fê que ela já não cresce como antes.

Eu sei, de alguma forma, que ela ainda me ama. Ou pelo menos, quero acreditar que sim. Ela cuida de mim e ainda fica feliz quando eu chego em casa, mesmo que eu não chegue exatamente feliz. Ela ainda prepara o café e a gente toma ele juntos, como quando éramos sozinhos. Sem tevê e sem filhos. Tinha dias que as manhãs eram mais alegres e dias mais tristes, mas não importava, ainda éramos ela e eu, na nossa cozinha, na nossa casa.

Depois que a raiva passou e eu vi quem era o culpado, só me sobrou tristeza. Assumi a culpa, mas não convivi bem com a pena. O segundo café da manhã sem a mãe não foi tão amigável quanto o primeiro. O Lipe mais me olhava do que falava e o Guto, sempre tão parecido comigo, mais observador e pacífico, menos furacão que o Lipe e a mãe dele, só chorava de saudade, sentado meu colo, quietinho.

Tratamento de choque. Foi isso o que a Fê fez comigo, nos sete dias em que ficou fora.

— Por que você deixou a mãe ir embora, papai? – Foi a única coisa que o Lipe falou, chorando um pouquinho também, limpando os olhos na manga do uniforme.

Por que, meu filho? Por que seu pai cagou feio, por que seu pai é um babaca. Por que seu pai é um egoísta, um arrogante. Por que seu pai achou que daria certo engaiolar um pássaro selvagem. Por que ele achou que fosse o certo da história, ele achou que ser o patrocinador dos filhos fosse o suficiente.

Segurei o choro. Não era bom que eles me vissem chorar de medo de a mãe deles nunca mais voltar. Sumir nesse mundão de meu Deus sem nunca mais dar notícias.

Às oito da manhã dos dias de semana, na frente do portão da escola deles, pelo retrovisor, eu via que o rosto dos dois era um copia-e-cola do meu. Tinham o cenho franzido. Aquele era o carro da mãe, com as cadeirinhas dos bebês, só que era o pai dirigindo. A Fê tomou cuidado de sair com o meu carro que não tinha as cadeiras: planejou passar a noite fora, planejou deixar as crianças muito bravas, planejou que eu as visse assim.

De onde quer que estivesse, na cama de outro ou não, em hotéis pela cidade ou não, eu queria que ela ouvisse que eu entendia. Que nós três não somos nada sem ela. Eu assumo minha parte na culpa, Fernanda, você venceu. Se eu não tivesse sido tão relapso, tão desatento esses anos últimos, você não precisava sair de casa só para me fazer entender. Não precisava nos deixar assim. Sei que ficar longe dos meninos deve ser tão doído para você como é para eles. Eu nunca duvidei das suas qualidades enquanto mãe, pelo contrário. Se os dois são tão inteligentes, tão falantes, tão educados, em nada eles devem a mim.

Nos dias sem ela, eu ia trabalhar e saía mais cedo para buscar as crianças. Via a felicidade deles quando viam o carro da mãe deles, mas apagavam no exato momento em que me viam. Não, filhos, não é mamãe, é só o pai de vocês. No quarto dia adiante, não mais me cumprimentavam, só me fuzilavam com seus pares olhos inquisidores perguntando o que diabos a mãe deles fazia que não estava ali com eles.

O que eu faria? Como dizer para uma criança de cinco e outra de sete que eu não sabia onde se enfiou o centro de suas vidas? Digo o quê? Como amenizar a verdade? Que nós brigamos e agora ela fugia de casa como uma criança rebelde quando os pais não fazem o que ela quer? É isso o que eu devia fazer? Cagar na cabeça de meus filhos com um milhão de hipóteses malucas? Mesmo sem receber os cumprimentos, eu os cumprimentava na volta para a escola e, depois, sem resposta, deslizávamos, mansos e melancólicos, nós três, para casa.

Falhar com a mãe não é só falhar com a sua esposa, é falhar com sua família inteira. É passar atestado de incompetente para as únicas pessoas que você não pode fazê-lo. Imagine como foi ficar sete dias nesta angústia.

Falhar com a mãe não é só falhar com a sua esposa, é falhar com sua família inteira.

Nos dias de sua ausência nós três chorávamos até dormir, na minha cama. Não lhes dei mais nenhuma explicação para o sumiço, eu não tinha nenhuma resposta que fosse boa o bastante para acalmá-los. O Lipe chorava baixinho, sentido. Era a única vez que ficava parecido comigo, quando muito bravo. Já me perguntavam se algum dia ela voltaria, sentiam-se abandonados. Maldiziam a mãe de pura saudade. O Guto só sabia chorar, nem sabia que se chamava “saudade” o que sentia. Só cheirava o travesseiro da mãe e aninhava a cabeça no meu peito num choro sentido e triste.

O Lipe queria ser forte para o Guto, porque a mãe dele ensinou que o “irmãozão cuidava do irmãozinho”. Nas noites que estavam com muita raiva de mim, dormiam na mesma cama, irmãozão cuidando do irmãozinho e o irmãozinho cuidando do irmãozão. Raiva que ia e vinha. Eu sei que eles me amam, mas eles me olhavam, enquanto jantávamos sem a mãe, me culpando. Fiz certo em assumir a culpa, em dizer a verdade? Não sei. Tem horas que eu acho que não, mas o que é que eu podia fazer? Subiam os dois para o próprio quarto depois do jantar e me ignoravam. O Lipe consolando o Guto, dizendo que “a mãe voltaria logo”, mesmo que ele próprio não soubesse disso.

Ela os criava bem, na minha ausência. Eu é que fodia com tudo.

O Guto passou a se esconder no guarda-roupas da mãe. Levava seus lápis de cor lá para dentro, umas folhas, e ficava lá. Quietinho, no ventre. Depois foi o Lipe, com suas lições da escola. Dormimos os três dentro do guarda-roupas da mãe no quinto para o sexto e do sexto para o sétimo dia de ausência, depois que eu tirei um mar de sapatos do assoalho do móvel e desparafusei as gavetas.

A culpa decepa os seus nãos. Se seus filhos querem ficar no guarda-roupas da mãe, você, pai omisso e relapso, não consegue dizer não. Pior que isso, vai junto. Cabíamos, um filho de cada lado e eu, cheirando a barra dos vestidos de uma Fernanda antiga. O Guto não chorou, o Lipe ia e vinha do choro. Eu, desde o dia um, não tinha desculpas para dar e não desafiaria a inteligência de meus meninos. Dizer que a mãe deles saiu de férias era uma afronta à inteligência deles: sem nem se despedir?

Não queria pensar que o estágio do choro passaria, que chegaria a raiva. O Guto entenderia o que é Raiva, com cinco anos? Saberia o que fazer com ela? O Lipe entenderia, aos sete? Eu, aos trinta e seis, entendo? Sei, eu próprio, o que fazer com a minha raiva?

Os sete dias que ficou longe me fez lembrar também, que além de péssimo pai, ausente que só o caralho, também sou um péssimo marido. Sou péssimo em demonstrações de amor. Nestes sete dias de ausência, só sete e também, tudo isso de dia, eu percebi que eu ainda sou doido por ela. Doido – de pedra; cego de amor. Precisei perder para constatar. É sempre assim.

Era domingo de manhã, bem cedo. Meus braços dormiam com o peso das crianças sobre eles. Acordávamos a qualquer barulho, qualquer latido, qualquer motoqueiro babaca, qualquer estalido do piso de madeira. Acordamos com o barulho do portão e saímos em disparada. Era ela de volta, entrando de ré na garagem. Sete dias. Apertado, o peito queria cuspir o coração.

Tinha óculos de sol, os cabelos presos, os tênis de corrida, um blusão de moletom. Os filhos correram na frente, abraçados na mãe deles, chorosos. Guto soluçava, os olhinhos espremidos, agarrado de um lado; Lipe chorava bem baixinho, agarrado do outro lado. As lágrimas dela escorriam por baixo da armação dos óculos escuros e nenhum dos três ligou para mim.

Ofereciam abraços, juras de amor e um coração, digo, dois corações inocentes e calmos, que perdoam a tudo, que se esquecem de tudo. Ela era o centro da vida deles, ousadia minha achar que eu fosse mais que um mero coadjuvante. Sem ela, eles não existem. Sem eu, eles só entram na estatística. A mãe lhes bastava. Estupidez a minha achar que eu fosse um elemento crucial para aquela família. Meu trabalho, meu tão amado e nunca negligenciado trabalho era a única coisa que me fazia importante. Eu era o patrocinador.

E só.

Não voltava por mim, não era eu o alvo, eram os meninos. Murchei instantaneamente. Me olhou por um segundo, nem isso, de relance. Aquela era a real: Se não tivéssemos filhos, aquele adeus não dito seria o último.

Mas tínhamos, essa era a bênção. Ainda dava tempo de consertar as cagadas que fiz e não sei sequer enumerar.

Falhar com a mãe não é só falhar com a sua esposa, é falhar com sua família inteira. (1)

Ela entrou com as crianças, perguntando se já tinham tomado café da manhã e eu peguei o carro ainda quente. Minha vez de sair, eu não queria ser um estorvo. Se ela voltava pelos filhos, eu não entraria no caminho dela, aquela não era a melhor hora de a gente conversar.

Claro que ela ia querer conversar, nós tínhamos que conversar, então que fosse numa hora boa, uma coisa que não a atrapalhasse as crianças. Fiquei fora, fui trabalhar de domingo, eu tinha coisas a resolver, de qualquer forma. O tempo que eu perdi saindo mais cedo para buscar as crianças na escola, eu podia recuperar naquele domingo.

Eu sou gerente de atendimento, publicitário de formação, sócio de uma agência. Eu lido com pessoas o dia inteiro, sou inteligente no trato com clientes, lambo e convenço até o Papa se ele quiser um comercial. Uma esposa que não está feliz comigo é até um ponto a menos no meu currículo de especialista em lamber saco.

É como dizem, não é? Em casa de ferreiro o espeto é de pau. Convenço a maior distribuidora de bebidas alcoólicas a virar cliente assídua da nossa agência, mas não convenço minha mulher de que sou um bom marido. Viro sócio da empresa onde fui escravo por quase quinze anos, mas não sou parceiro da minha esposa.

Já era mais da meia noite quando voltei para casa. As crianças não se abalaram com a minha chegada, ela tampouco. Só me dei ao trabalho de atrapalhar o sono dela para passar para o banheiro e tomar um banho.

— Estou inscrita no mestrado. – Me disse, assim que abri a porta do nosso banheiro, a toalha enrolada na cintura. Estava sentada na cama, uma camisola quase infantil, os olhões arregalados sem nenhuma pista de que dormia.

Então era isso. Seis meses atrás, quando saiu o edital da Universidade em que se formou, ela comentou comigo sobre sua possível “volta à ativa”. Eu, em tom de brincadeira, disse que ela estava enferrujada, que seria impossível de acompanhar os cálculos, que depois dos filhos, ela só sabia somar lancheiras e subtrair fraldas. Nunca falei sério, mas essas palavras saíram da minha boca.

Sem que eu soubesse fez a prova, sem que eu soubesse, passou. Sem que eu soubesse, se inscreveu. Talvez essa semana toda fora tenha servido de teste para descobrir se conseguia passar a vida sem a gente, sem eu, principalmente.

— Ok… – Me limitei, com entonação de “o que mais?”

— Peguei bolsa da FAPESP.

— Parabéns. – Disse, querendo dizer a congratulação que disse, mas com entonação de “o que mais?”.

— E eu estou-

Eu sabia, eu sabia.

— Estou te deixando.

Com ela, eu não podia nem bater de frente, nem me rebaixar. Não lhe disse resposta e fui deitar no sofá. Não vou dizer que não chorei. Chorei sim, enfiado no banheiro do andar de baixo. Protelei ligar para ela durante a semana toda, por orgulho. Me neguei pedir que voltasse. Agora, com a verdade tão clara, tão na minha cara, eu chorava. Era agonia, era aflição, era medo também. Era um reboliço, o medo e o desespero se revezavam para me socar a boca do estômago. Choro engasgado que não vinha. Eu amava, eu ainda amo aquela mulher. Eu amo tudo nela, todas as nuances, todas as facetas, todas as coisas que pensar em fazer, tudo! É por isso inclusive que me casei com ela, que tenho filhos. Não queria perder todo nosso projeto, tudo o que construímos, tudo o que passamos.

Para casar tem que ser aquela que vai te pentelhar a vida toda. Tem que ser aquela que a conversa não tem fim, nem as piadas, nem as risadas. Tem que ser aquela que você sonha em um dia poder voltar para casa depois de um dia de serviço e esquecer que trabalhou, esquecer que é segunda-feira, esquecer que está chovendo. Seu coração está em casa, você voltou para o seu lar e tudo está bem – é com essas que a gente casa.

E foi com essa que me casei.

A gente não procura uma bunda durinha para casamento, a gente procura uma pessoa. Se ela vai ser mãe, ainda é uma outra decisão, mas eu dei sorte: de a dona do meu pau ser a mesma mulher que é mãe dos meus filhos.

O problema é que eu era um bosta, eu sou um bosta, eu falo sem pensar, eu machuco sem medir. Eu não quis feri-la eu não quis, juro que não. E ela levou a sério, o lance do cálculo. Seria só isso? Ou era esse só o estopim de uma vida de abusos? De frente para a privada, a vida se esvaindo, chorando feito um filho da puta, refleti. Desde o segundo filho que ela não era a mesma. Caíra por terra seu plano de ser uma mãe gostosa, de dar conta de ser mãe, engenheira e esposa. Desde aquela época, desde lá que não me trata igual. E eu, cabaço, não percebi, só acostumei. Acostumei aceitar a medida certinha de amor que ela me dava em doses mínimas, homeopáticas, placebo para um coração doente. Acostumei com ela ditando todas as nossas regras e me excluindo dos planos. Aceitei vê-la escorregar por entre os dedos.

O abandono estava maquinado, ela esperou o edital, estudou para a prova, passou e apresentou o projeto aos moldes da faculdade. Tudo calculado. Ela não abandonaria os filhos, eu a conheço. Ela os levaria para longe de mim e eu viveria como, de ração fracionada de amor nos fins de semana? De lembranças de tempos bons que nunca mais voltarão? De promessas de que “farei dar certo com a próxima”?

Aquele espectro de gente diante da privada não era só um marido chorão e perdido sem saber o que fazer, era como eu seria, como eu ficaria, se fosse abandonado pelas três pessoas mais importantes da minha vida. Era isso, aquele cara trancado no banheiro. Era o desespero em forma de gente. Viver sem eles seria continuar vagando sem nenhum propósito, nenhuma alegria. Um Rodrigo sem cor, sem sabor.

E eu não queria ser este Rodrigo.

Era cinco da manhã da segunda feira, quando cansei de chorar, espremido no cubículo do banheiro do andar de baixo. Rodrigo é chorão, Leitor, se acostume. Respirei fundo. Lavei o corpo querendo lavar a alma. Ela não me abandonaria. Eu não sossegaria até tê-la de volta como nos tempos do carro apertado, do desespero de arranca-roupas, da época em que Fernanda era uma mulher-fogo. Daquele momento adiante eu não seria mais a tampa, não abafaria jamais, nunca mais, seu fogo. Eu seria, estava decidido:

Eu seria a lenha.

Falhar com a mãe não é só falhar com a sua esposa, é falhar com sua família inteira. (2)

Por isso, saí do banho, seis da manhã da outra segunda, o mais arrumado possível, com o perfume que ela gostava, a camisa que ela gostava, a barba feita e os cabelos meio molhados, como ela gostava. Fiz o café e esperei ela descer. A mesa estava posta como ela costumava pôr para mim.

Usava uma camisa do Van Halen que não usava há pelo menos sete anos, as mangas tão cavadas que eu via parte de suas costelas e sua tatoo. Foi fazendo aquela tatoo que nos conhecemos. Tão emblemática! Tão querida! Não usava sutiã e eu vi os bicos duros, apontando para mim, por baixo do logotipo. O short curto era outro sinal. Ela queria ser de novo aquela gostosa (por dentro e por fora) que um dia foi, abolindo de vez a máscara que tem usado nos últimos anos: Cabelo preso, camiseta de propaganda de político, leggings e os tênis. Queria abolir, usando roupas da antiga Fê, a falta de cuidados que a Nova Fê tinha consigo.

Ela sorriu para o gesto do café posto na nossa mesa quadrada. O sorriso mínimo denunciava tudo, ela não desceu do quarto com as armas em punho. Ela sabia que a mesa posta para ela era um ato meu de desespero, mas não o rejeitou. Sabia que eu também não queria briga.

— Bom dia – Me disse, a voz rouca, os olhos castanhos inchados. Passamos a noite chorando; não fui só eu que se desesperou no leito. Sentou-se à mesa sem me olhar e eu lhe servi café. Era essa a minha deixa:

O Próximo Homem da Minha Mulher Sou Eu - Camila Marciano - 02

  • Nay

    Camis, sua linda, que perfeição, você consigo deixar ainda melhor, amei! <3

    • Camila Braga Marciano

      Oi, Nay! Obrigada por ler <3 <3

      • Nay

        Obrigada por escrever <3

  • Lorena Harielli

    Gente, simplesmente perfeito…. AMEI Cams você está de parabéns conseguiu melhor o perfeito <3

  • Letícia Macedo

    Que coisa linda.
    Esse prefácio me fez vontade de ler tudo de novo.
    Escreve tão maravilhosamente bem Camila😘

  • Patrícia Fernandes Silva

    Que lindo Camis!!!!! Que saudades da fé e do Dio vou ler tudim de novo!!!! Beijos!!