Qvia foi, sem dúvidas, um negócio que me deixou orgulhosa demais

Se você der sorte, as marcas do amor serão tão fundas quanto a marca da violência

Não foi nem uma, nem duas vezes que eu disse que Quia (com U ou V, tanto faz) começou porque eu queria me desintoxicar do Universo mais ou menos bonitinho do Próximo Homem. Queria chacoalhar o livro e ver sangue escorrer de dentro. Eu, boba, achei que ia me contentar escrevendo um mistério sobre assassinato. E só. Foi assim que eu comecei, era essa a premissa. Os malzões mandando matar os malzinhos. E uns cabras bestas perdidos no caminho, arma letal de uns malzões. A ideia não era ter nenhum fulano bonzinho no meio do pagode, era ver todo mundo ser ruim às suas medidas.

De certa forma, consegui isso. Não tem ninguém cem por cento certo, nem cem por cento errado. Tem é gente que obedece e gente que manda. De todos os lados.

Não era para ser esse monte de reviravolta, nem esse monte de tiro. Na verdade, a maioria deles não foi planejada. Os personagens me disseram o que eles queriam. Eles quem saíram falando que eram irmãos, namorados. Joguei um monte de ratinho num labirinto e fiquei besta do como eles reagiram. Cada um com suas nuances, suas estéticas, seus jeitos. E todo mundo contaminando todo mundo, porque é assim que é, quando você anda em bando.

O que mais me surpreendeu enquanto escrevia o Quia foi meu próprio envolvimento. Com o Dio eu mergulhei de coração, toda a minha alma estava ali (ou, o que eu penso que seja a minha alma, porque né…). Com o Quia… Todo o meu corpo estava ali. Cada parte de mim, minha fome, meu sono, minha insônia. Eu vivi o Quia, isso o que era o mais engraçado. Era como se eu sofresse o que eles sofriam, como se eu me erguesse da cadeira e fosse a Bel. A Bel saía de mim, entrava na história e voltava para mim, para dormir no meu colo. Por mais de uma vez eu me senti o Ulisses. É idiota escrever isso, pareço doida, mas Quia só saía nas Férias justamente por isso. Quia 1 eu escrevi durante as aulas e peguei DP em Grego III. Preferi escrever Quia do que ir às aulas. Ainda prefiro, aliás. Suei escrevendo algumas partes, o coração saía pela boca. Coisa, o leitor sabe porque ele viveu tudo isso comigo, coisa que deixa você doido.

Abri o caderno de Plot hoje e fui começar um plot novo. Olhei os rabiscos do final do Quia 3 e me bateu saudades. Tirei foto e ia colocar no Grupo de Leitura, mas como, como só colocar a foto, sem nenhum textão?

Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras. Mentira. A foto não explica, nem eu sou capaz de explicar o que é todo esse quebra-cabeça que Quia acabou virando:

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Só sei que foi ponto sem volta. Por mais que eu escreva, daqui para frente, sobre gente normal, sobre situações normais, Quia me marcou. Ponto sem volta. É o resumo do que a Camila de quinze anos escrevia. É doido como a Camila de Quinze anos, sagaz e sem medos do jeito que a Camila era, mas muito mais sofisticada e crescida, de agora, que nem eu! Quia é de deixar a Camila novinha orgulhosa, mas não satisfeita. A Camila de Quinze anos ainda vai me pedir muitas e muitas edições no Quia 3,essa é a parte mais legal. Camila de lá e a de cá não cansam de se bater com o texto. E acho que é isso o que faz a gente se sentir especial. Nunca estamos contentes.

E, ao mesmo tempo que Quia é muito diferente de O Próximo Homem e toda a Saga dos Ferreira, não é. A família e a relação de pessoas que bota a gente para frente acaba que é o meu mote. Dispenso pessoas que são sozinhas, mesmo a pessoa mais solitária fisicamente, vive com a cabeça num mundo onde ele não é sozinha. Humanos não são feitos para ser sozinhos e eu acredito piamente nisso. Cegamente. Se fosse para a gente ser sozinho, tínhamos nascido de ovos, não é?

E no entanto, cá estamos nós.

Não digo com isso que todos os nossos são bons conosco, que tem que ter parentesco de sangue. Família é a palavra mágica que, por mais que digam que não, a gente escolhe, sim. Não chama aquele tio chato de Família, chama de parente. E tem diferença chamar a parentada para o natal e natal em família. Natal em família até tem quebra-pau, é claro, mas é gostoso assim mesmo. Com todo mundo fazendo bulling (nunca vou saber escrever essa maldita palavra) com todo mundo, todo mundo tirando sarro. É assim que é. Família não está aí para passar a mão na sua cabeça. Desconfie sempre de amores que só te passam a mão na cabeça. Amor, para mim, não é isso. Quia é da Guerra, é claro que é, pessoas não ganham Y no bucho à toa. Mas Quia é mais do amor do que tudo.

Até que saiu um romance (pero no mucho) legalzinho, né? Os ratinhos me levaram (e, de quebra) levaram o leitor a uns lugares divertidos. E, analisando de perto, O próximo Homem e o Quia são muito a mesma coisa. Sou eu, e de alguma forma, é você, também.

(momento de choro e dor porque eu não tinha backup das capas antigas e, quando fui roubada, roubaram o original do Dio e as capas originais do Quia. Só me toquei disso hoje e TÔ BEM TRISTE).

capas

  • Letícia Macedo

    Acho muito massa todo o seu processo criativo, a forma como vc escreve em caderno antes de partir para o computador. Amo Quia demais e foi livro que me marcou muito.
    Parabéns pelo trabalho, é maravilhoso.

  • Paula Thereza

    Tenho um caso de amor por Quia que não cabe dentro do peito. Essa é a terceira vez que leio esse texto, mas fico emocionada como se fosse a primeira.

    • Camila Braga Marciano

      Uau! Obrigada por gostar tanto do meu filho mais doido! <3

  • Victória Barbosa

    Eu já li Quia umas 7 vezes acho, eu não fazia outra coisa, era o dia todo, o tempo todo, e só parei de ler porque meu celular quebrou, estou apaixonada por ele, Os Ferreiras é uma coisa linda de se ver, mas foi o Quia que me deixou de quatro, lendo igual uma doida varrida, eu não tinha sono eu só queria saber de ler, era como se eu fizesse parte, eu sentia o que cada personagem sentia, chorava igual uma condenada.
    Eu abomino a homofobia, o preconceito em geral. Mas o Quia me mostrou que eu tinha sim um preconceito maquiado pra que ninguém percebesse. Um preconceito estético, dizia que dois homens transando devia ser muito feio. Ai aparece o Gustavo e Joaquim, e foi um verdadeiro tapa na minha cara, passou a ser meu casal preferido,a Bia e o Guto que antes era o meu casal preferido passou para o segundo lugar, e que Deus me perdoe, mas eu nunca chorei tanto de ver dois homens transando, eu suspirei como eles, eu me excitei com eles. E o preconceito? Foi pra casa do caralho como diria o próprio Gustavo.
    Obrigada Camila, eu li os Ferreiras e os Quias e todos eles mudaram a minha vida de alguma forma! <3