Algumas de nós ainda vivemos na mordaça – Então não faça piadas daquilo que dizemos.

Todo dia eu fico sabendo de uma mulher que foi exposta. Alguém que disse alguma coisa indevida ou tirada de contexto que acabou viralizando como “a mina que tem que ser crucificada por dizer o que disse”. É todo dia. Se não é por um print indecente, é por outra babaquice qualquer. Nome, perfil mencionado, todo tipo de descaracterização de que tem uma pessoa por trás de um avatar.

Fato: as pessoas se esquecem que tem uma pessoa atrás de um avatar no facebook. Fato: as pessoas se sentem no direito, não uma, não duas, mas várias, de sair apontando e mandando mensagens ridicularizando e ofendendo a pessoa printada. Fato: se for mulher, aquele serzinho que já não pode dizer muito, pessoas pioram. Se, num contingente mal-intencionado fisicamente, o estrago é imenso, um contingente virtual mal-intencionado que sabe que não pode atingir o alvo com uma pedra na cabeça, o estrago é igualmente imenso.

Toda vez que eu vejo alguém ridicularizando algo que uma menina disse, eu penso no quanto estamos atrasados. Toda vez que eu vejo um livro de uma menina sendo ridicularizado por conter temas femininos (e cor-de-rosa), eu penso no quanto estamos atrasados. Tem algo que está impresso em cada ridicularização que é justamente o fato de que mulheres não são feitas para falar. Não são feitas para pensar, para produzir reflexões, não são feitas para produzir conhecimento mesmo que não seja na esfera científica e acadêmica.

Facebook é ótimo para disseminar opiniões. E é ótima esta interação, esta mensagem instantânea. Só que fica impressa aquela velha marca de que a tecnologia cresce, as máquinas se modernizam, mas nós, não. Ainda somos polarizados o bastante para acreditar que exista por aí apenas uma verdade incondicional, apenas uma opinião válida ignorando que existe um sujeito histórico dizendo aquilo que é, muitas vezes, o reflexo de seu próprio meio e de outros sujeitos exatamente como eles.

Nessa minha opinião entretanto, eu sei que tem um contra-argumento fortíssimo que não nego, inclusive, que é justamente o fato de que “deixar falar”, ou a liberdade de expressão, é nociva no tocante às minorias. Eu sei que racista não deve ter seu discurso defendido, que misógino (quem tem ódio de mulher) não deve falar, que a extrema direita white-cis-male-power não pode falar, mas espera: eles já estão falando. E olha que discurso de ódio é crime. Eles falam por décadas, por centenas de anos. Eles não são ridicularizados, menosprezados, expostos e diminuídos por dizer o que dizem, mesmo que seus discursos sejam criminosos. Eles estão aí, velados ou escrachados, para qualquer um que tenha estômago para ler.

Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo

 

Então, por conta de um movimento que teima em falar por todas as mulheres (e olha a audácia disso, porque um movimento que abarca TODAS as mulheres tem que dar a liberdade de voz a TODAS as mulheres e suas opiniões e dúvidas e aprendizados tortos que tiveram durante a vida excluindo, é claro, os discursos criminosos) nos impede de termos a nossa própria fala, o nosso próprio discurso mesmo que nem sempre seja aliado ao que a maioria diz.

Quando uma mulher se ergue e diz “morte a todos os machos” ou “todo homem é um estuprador em potencial” eu vejo centenas de mulheres que não se erguem contra uma fala, mas à uma pessoa. Eu vejo essa mulher, que acabou de ter coragem de abrir sua boca, voltando para casa com o rabinho entre as pernas porque ela, que tem seu direito defendido pelo movimento feminista vigente, não pode erguer a voz e dizer o que quer.

É simples quando você tira a fala de um sujeito. Nunca se sabe o que passa uma mulher que odeia um homem. Nunca se sabe do número de abusos, do número de investidas contra ela. Nunca se sabe o ódio que ela guarda dentro de si a dizer a plenos pulmões que odeia um homem.

Mas ainda assim, eu vejo exposição atrás de exposição. É briga de vertente contra vertente, caça às bruxas dentro do movimento, “desmascarando” moças que até ontem não tinham sequer noção de que estão transando com o namorado por vontade dele, mas não por vontade própria. Num movimento que ousa se erguer e falar por todas as mulheres, eu não consigo entender que exista apenas uma verdade insubordinável, perfeita e imaculada. Eu não consigo entender, com todos os recortes que há para fazer, de classe, de cor, de cisgeneridade, de situação financeira, de maternidade, de religião, com todos os problemas que cada setor feminino enfrenta, que haja apenas uma cartilha, decorada, pautada no “mas você tem que se sentir bem, mana”. Entende onde eu quero chegar?

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Que haja debate, que haja importação e exportação de ideia, que haja erro e ódio, mas que não haja, em hipótese alguma, ridicularização.

Nós temos o direito de dizer o que vier à cabeça e temos o direito de errar por isso. Temos que ter o direito de não sermos ridicularizadas e expostas pelo que pensamos, sendo que nem cinquenta anos atrás, nós nem sequer pensávamos. Pensar por nós e sermos amparadas por pensar torto é o que nos confere unidade no movimento de feminista-peluda-mal-amada-mal-comida-e-gorda. Lembra? É o que dizem de nós, fora do meio. Eles nos ridicularizam pelo sentimento de libertação, então que não nos ridicularizemos pelo exato mesmo motivo. Uma sociedade é democrática quando todas as vozes têm direito de dizer, então um movimento de mulheres dentro de uma sociedade democrática não pode ser na base da cartilha e do “eu concordo com ela porque ela é minha amiga”.

Nem todo mundo teve o privilégio de estudar, de ser bonita, de ser magra, de ser branca, de ter dinheiro, de ter tido pais abertos ao diálogo, de escolher religião. Algumas de nós ainda vivemos na mordaça. Então não faça piadas daquilo que você não sabe a circunstância em que foi dita. Contexto dita tudo e odiar é muito simples quando tá todo mundo odiando.


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