Andei sonhando errado a minha vida toda

Tem uma coisa que está atrasada na minha vida por seis meses porque eu andei esperando que meu sonho se realizasse. Todo autor quer ser publicado. É com isso que você sonha, quando começa. O Tal do chegar lá. O ser reconhecido, amado, visto e pago por aquilo que você trabalha.

Eu, até semana passada, só pude sonhar com aquilo que eu vi, com aquilo que eu já vi sonharem. Houve uma editora X aí que eu pensei que seria ela. E apostei todas as minhas fichas, suspendi meus projetos, escrevi com metade do gosto que eu escrevia antes. E esperei. Sim, a espera é uma coisa que anda comigo e com os meus livros. O Dio, o Lipe, o Guto. Todos eles esperam e eu esperei também.

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E aí eu recebi a notícia de que “já haviam femininos demais para 2017”. Quer dizer, o meu sonho, para alguém, era só um número. Eu era o número tal de fila de outras pessoas que sonham como eu. E tem gente que lucra horrores com os sonhos dos outros, porque no final, é isso. Um sonho. Com um papel e uma caneta, todo mundo pode escrever. O que vai ditar que isso vire trabalho ou não é o que você faz quando não está com a caneta na mão.

Porque no fim, escrever é a parte mais fácil.

Comover leitor, fazê-los sonhar com o meu mundo, fazê-los sonhar comigo é que é todo o trabalho. Comover, atrair, vender depois. E quanto mais eu sei sobre o mercado, mais eu me vejo fora dele. Uma amiga (que eu não amo todo dia) já tinha me dito isso.

E depois de perceber que eu seria mais um livro “feminino” na prateleira, que 10% do preço da capa não contempla todo o meu esforço, que o livro físico na prateleira de alguém é completar mais o sonho do que só tê-lo na prateleira de uma livraria, que eu vi que eu sonhei errado a minha vida toda.

Eu não quero mais publicar. Publicar não é mais meu sonho. Eu quero é chegar na casa do público, quebrar a barreira, ir onde o post bonitinho compartilhável da editora não chega. Eu quero viver disso e se viver disso implica recusar grandes coorporações, então que seja.

Porque a gente só sonha aquilo que já viu. Aquilo que admira. E, de repente, eu me vi muito perto do meu sonho errado, mas não sendo nada disso que eu esperava que fosse. Eu vi coisas que eu não quero que seja a minha vida. Eu vi um clima, uma indisposição, um desrespeito. Eu me vi ansiosa, nervosa, sem conseguir dormir. Sem escrever, só chorando e esperando.

E eu não quero sonhar com uma vida assim.

É verdade, nem todos os meus livros serão bons, nem todos os leitores vão poder comprar. Nem todos vão querer comprar, mas eu não quero que o dinheiro e quantos livros eu vendi sejam o meu mote. Eu nunca escrevi pensando nisso. Eu nunca escrevi querendo louros. Eu escrevia porque eu era alguém melhor fazendo isso. Eu quero ser alguém assim, cheia de alegria e divertimento no processo. Cheia de spoiler doido e leitor enloquecendo comigo. Cheia de segredinhos, easter-eggs, brincadeiras tontas. Porque eu quero, mais que publicar, é ser feliz fazendo isso.

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Eu já vi gente enlouquecendo, perdendo o juízo. E eu não quero isso. Então eu dou meia volta, cheia de orgulho de mim mesma, ganhos pessoais que não tem dinheiro que pague e escolho outro caminho.

Só inova aquele que consegue sonhar diferente. E, sinceramente, eu confio demais e gosto demais do meu trabalho, para entregá-lo a alguém que vai me ver como um número numa pilha de títulos para 2017.

E eu só tenho a ganhar ao perceber, nos meus 20 e poucos, que eu sonhei errado. Dá tempo de voltar e sonhar de novo!