No dia mulheres e eu aproveitei o melhor que pude!

Uns anos atrás, quem me lê há um tempinho já viu essa Camila: Uns anos atrás eu era dessas de bradar que “dia das mulheres não se ganha flor”. De fato, não se ganha. Não é dia para comemorar o fato de ser mulher. É dia de lembrar que nem todo mundo tem os mesmos privilégios que e que eu também não tenho todos os privilégios que um homem branco tem.

Oito de março a gente relembra umas senhorinhas queimadas e coloca outras mocinhas e senhorinhas porrêtas para jogo. É pra gente aplaudir a coleguinha do lado que a gente nem sabe quem é. É para a gente lembrar que sozinhas a gente não sai nem de casa. É pra parar de correr e brigar um pouquinho, só um pouquinho e olhar para trás e ver:

Anos atrás a gente nem sonhava com o voto. Anos atrás a gente nem saía de casa sem marido. Anos atrás a gente era forçada a casar e, se quisesse estudar, que fôssemos ao convento. É para a gente ver que chegamos muito longe, mas não chegamos todas juntas. As pretas ainda estão chegando. As indígenas, as ribeirinhas, as pobres. Estão todas chegando. Sem morrer, sem apanhar de marido porque a janta não tá pronta, sem sofrer sozinha na fila do hospital com filho doente. No dia das mulheres é para a gente ver que juntas somos mais fortes.

E eu vi.

Não só vi, como senti. Só mulher salva mulher. Não tem outra. Qvia já dizia, pau não salva ninguém. É bobeira perto dos problemas de verdade que o mundo enfrenta, mas no ponto de vista micro, da vida privada de cada um, 8/4 foi dia de me ver grande. A primeira vez na vida que você se toca da sua própria dimensão. Eu não me vi como eu sou, mas quem um dia eu serei. Sabe, o pontinho branco no fim do túnel? Sabe, o momento que você vê um caminho lindo se abrindo, lá na frentona, não importa: é o meu caminho e ninguém me tira dele.

Foi a hora, é bobo, tudo bem, deixa eu ser boba, foi a hora que eu vi que dou conta. Com ajuda de outras mulheres, cheinha de afagos, palavras bonitas, beijinhos. Dá pra ir longe. Dá para ir mais longe do que os 10% do preço de capa e do “a palavra final é do editor”. Dá pra ir para onde eu quiser.

Neil Gaiman disse uma vez: Ninguém sabe o que vai ser do mercado [literário] daqui vinte anos e todas as tentativas são válidas. Nem o mercado sabe onde estará daqui vinte anos. Dá para ir para onde eu quiser. Acompanhadas nós ganhamos o mundo.

De presente eu não ganhei nem flor, nem chocolate, o que eu ganhei foi uma visão e muita força. Cês nem imaginam. O que eu ganhei é o que eu espero dar para todo mundo. Compartilhar a sensação de que eu não sou nem tão pequena nem tão dependente de um sistema de mercado, do jeito que eu achei que era.

Tem os que analisam o mercado e aqueles que fazem. Quem o faz não fica parado olhando os gráficos. Mete a cara, fecha os olhos e vai, como diria a internet, com medo mesmo. Toda atriz de Hollywood fala ao menos uma vez na vida “você tem que fazê-los te engolirem”. E agora eu entendo. Não tem nada a ver com eles, tem a ver conosco. Com medo, a cara e a coragem, doida de pedra e taxada de fracassada mesmo, dane-se. A gente vai.

Vá você também. Descola a bunda da cadeira e vai. Mete a cara e se enfia. Pode dar errado, mas e quem se importa? Se der errado, dê dois passos para trás e tente de novo. Mete a cara e se joga. Não pensa no tudo o que você deixou para trás, mas tudo o que tem pela frente. Muda o rumo, pede o divórcio, troca de emprego, abre a sua loja de doces, chama a sua amiga para entrar de sócia com você. Vai e faz. Planeja, mas não planeja muito, só o bastante para não se perder. Vai dançando conforme a música. Nunca vai ficar fácil.

E, olha que engraçado: quando ficar fácil demais sinal que tá na hora de mudar de rumo de novo. Gente satisfeita não se mexe!

A gente só vive uma vez. E vai viver a vida toda esperando dar certo? Tem gente, Ulisses disse e copiou do Bukowski, que passa do útero pro túmulo sem um estalo de genialidade. Todo mundo quer que a gente passe do útero para o túmulo sem falar muito alto, sem discordar muito, sem brigar, só sorrindo, acenando e abrindo as pernas para parir.

A gente é mais que isso. E a cada linha que você lê, você não sabe, mas tá me salvando. Só uma mulher para salvar a outra.

Vem. Vira o volante com tudo, mas não fecha os olhos. Dar certo não é o objetivo. Fazer é o objetivo, o dar certo é consequência. Uma porrada de mulher deu tudo na vida para a gente fazer o que quiser. Uma porrada de mulherão da porra veio, deu tapa na cara de geral e foi embora. A gente tem um dever moral com elas e elas estão, desde nossas mães e avós até astronautas, vencedoras de prêmio Nobel a celebridades, olhando a gente lá de cima e dizendo: VAI!

E a gente sabe que tá na hora. Vai você também.