O que escrever Respire Fundo Me Trouxe

Espera: Volta a fita. Primeiro eu preciso voltar lá para 2017, numa conversa franca com uma livreira que me apresentou um quadrinho maravilhoso (A Presença Invisível) que eu fico enrolando para falar dele, mesmo sendo EXTREMAMENTE BOM.

Ela me disse, e eu passei muito tempo para concordar: “Nããão, não é uma escrita desleixada que fica descrevendo crimes, é uma coisa bem mais sutil, que faz você pensar e desenvolver empatia, não é para ficar com dó da personagem”.

Se você ainda não leu Respire Fundo, talvez esse texto não seja muito para você. Recomendo que leia aqui. Mas, se você já leu ou vai continuar lendo de cabeçuda que é, então seguimos o baile:

A livreira disse, com essas palavras: “não é para ficar com dó da personagem, é para desenvolver empatia”. E eu nunca mais consegui ler um livro que descreve, passo a passo como é um crime (principalmente os sexuais, o tipo que me toca mais e que mais fundo fala comigo) do mesmo jeito que eu lia antes justamente por isso. Porque a gente é levado a ter dó da personagem e, querendo a gente ou não, ter dó é pensar no como ela é coitadinha e se fixar apenas no fato – tal e tal coisa aconteceu – e não sobre quem a personagem foi ou quem será.

Quando fui escrever Andréia pensei um monte de vezes se a coloco no lugar de vítima. Porque o meu medo era fazer parecer que ela só seria quem é justamente pela tragédia (me dê algum crédito, eu tô tentando evitar spoiler ao máximo) como se ela não fosse nada além e que não tivesse mais nada na vida. Pensei em colocar o ex-marido como vilão quase Disneyland, que não tem porquê nem como, só é mau e é isso aí, mas ninguém no mundo é mau só por ser mau. Até os ruins têm seus porquês. Seja porque no universo dele é assim que as coisas funcionam, seja porque ele foi criado para ser assim, seja porque ele tem um parafuso a menos na cabeça. Seja o que for, todo mundo tem porquê. E os erros são o melhor que a gente pode fazer naquele porquê, né? Depois a gente vai ver que o erro é um erro, mas na hora se parece com a única saída possível e a gente age como acha que é melhor agir.

*Exceto quando é com criminoso. Crime não é erro, vamos deixar claro. Crime é a linha imaginária que a pessoa cruza e que tem que arcar com as consequências. Porque senão eu estou dando um arsenal gigantesco para que o Fábio possa se explicar. E talvez ele tenha um motivo, mas é que o motivo dele não é maior que o trauma que ele deixou na vítima. (Se você leu, você sabe quem é Fábio).

…E toda vez que eu ia escrever a palavra “vítima”, eu já me corrigia. Tanto é que acho que essa palavra só apareceu uma vez, né? Eu não queria, e não quero, que as pessoas lessem o meu livro vendo Andréia como a vítima. Porque, por mais que seja só o jeito que as pessoas usam para tratar quem sofreu, a gente sabe que vítima tem uma carga muito negativa e muito de coitadinha. E eu não conheço ninguém que queira ser a coitadinha.

Até as coitadinhas dão uma de coitadinha só para ganhar qualquer coisa. O ser coitadinha pelo simples fato de ser coitadinha não existe, né?

E como um humano esférico, cheio de lados, de ângulos, de pontos de vista, por mais que Andréia seja como é também pelo que passou, ela é mais que isso. Assim como o leitor é mais do que dizem dele, assim como eu sou mais do que dizem de mim.

É ou não é? Só que quando a gente encosta no outro, tende a achar que os outros são planos, só têm um lado, uma escolha, um ponto de vista. Principalmente com personagens. É, ou não é? E eu morri de medo que você, do lado daí, achasse que Andréia fosse só aquilo que aconteceu com ela.

E a Você? O que Andréia te ensinou? Chora aí nos comentários!

  • Ana Luiza Vivanco

    Lindo!!! A Andréa me ensinou que a frase “não importa o que fizeram com você, o que importa é o que você faz com o que fizeram com você” é realmente verdade… Coisas ruins podem acontecer todos os dias com qualquer um de nós, mas nós podemos escolher a maneira como enfrentar esses problemas… Claro que muitas vezes não conseguimos sozinhos (e a Gio foi ótima), mas as pessoas ao redor podem ajudar, apoiar, mas quem tem que se reerguer é você, ninguém pode superar seus traumas, você que tem que superá-los, e a Andréa foi espetacular desde o principio, em nenhum momento ela ficou no vitimismo. Camila você conseguiu abordar um tema tão delicado de uma forma tão sutil, e ao mesmo tempo sem deixar de dar a devida importância para o assunto… Amei amei e amei!! Obrigada mais uma vez!