Epopéia de Mulheres

Por ser fã de Charles Bukowski – Depois que a L&PM o colocou de volta na praça muita gente agora concorda comigo – seus livros fazem parte de minha estante. Mais que isso, minha estante é ocupada boa parte por seus livros.

Um que eu sempre tive carinho especial foi o “Mulheres”, cuja introdução começa com um sonoro “Muito cara legal foi parar debaixo da ponte por causa de uma mulher” e termina em “Abri pra ele uma lata de atum compacto Star-Kist. Embalado em água de fonte. Peso líquido 190 gr.”. No meio, como sugere o título, séries de mulheres.

Mulheres dignas, decentes, inteligentes e todo o estereótipo cabível no jargão “para casar”, nenhuma delas está com ele. Estas estão casadas com amigos, mas que ele tenta pegar. A que cai na conversa dele se desvirtua no caminho, mas antes, era uma boa mulher.

Os tipos que o acompanham são como o próprio Henry Chinaski, seu Alter Ego. (Para quem já leu “Misto Quente”, seu primeiro grande romance, já conhece seu caráter. Um anti herói americano, que vai contra todos as regras do American Way of life. Sofreu na infância pela loucura descabida do pai, na adolescência com espinhas/furúnculos, na vida adulta dividia seu tempo entre bares, trabalhos rápidos e insalubres, sempre acompanhado de suas queridas: as bebidas).

Mulheres piores que os trabalhos que pegava por dinheiro. Mulheres infiéis, loucas, viciosas. Que sempre o acompanhavam, quando carentes, ou o telefonavam quando precisavam de dinheiro. Logo iam para caras mais certos da cabeça e deixavam-no à deriva.

O Amor quebra meus ossos – E eu rio.

Corta para a Bienal de São Paulo, 2012.

Caminhava eu, mais dominada pela Velha Mania que o de costume, quando vejo um amontoado de gente. Livros a cinco reais. Ninguém resiste a livros por cinco reais. Entre a coleção de Stephen King, outros títulos que já me esqueci, repousava um livro grosso e baixinho, sujinho. Já tinha ouvido falar dele, mas a versão normal estava muito cara. Olhei capa, contracapa. Vasculhei na prateleira por um exemplar mais limpinho, nada. Só restava ele, me esperando calmamente, como um homem espera a mulher no carro, quando marcam um encontro.

Pensando bem, a sujeira de fora do livro, combinava com a sujeira de dentro. Como um estilo próprio, bem propício.

Não comecei a lê-lo assim que cheguei em casa. Sabe, aquilo era uma bienal. Alguns títulos vieram antes.

Diferente do que fiz com “Mulheres”, aqui está um PodCast maravilhoso do grupo da RádioElétrica, que passou vinte e uma horas lendo capítulo por capítulo desse livro, onde a introdução é lida pelo próprio autor. Se você tem Pornopopéia e o está lendo, ou pretende ler, ou se gosta de dormir ouvindo música, acho que vale.

Capítulos 1 a 10
Capítulos 11 a 20

O Livro de Reinaldo está cheio de pequenos Haicais e pequenas verdades, como este aqui:

“Nego que cheira pó, por exemplo, odeia relógio. De magrugada, você ali na função, rebocando a napa, só existe o espaço. Mas aí vem o sol e traz de volta o filhadaputa do corrosivo, impositivo, aflitivo tempo.

A gente bebe
a gente cheira
a gente vive
na batida divertida
da gandaia e da zoeira,
que é pra não ver o tempo passar
que é pra não ver a vida passar,
passar e passar,
pra sempre
perdida.”

É um drogado “Cineasta Maldito” que só tem um filme publicado, conta histórias e inventa mentiras como poucos. Contada em primeira pessoa, o próprio autor faz parte da história.  Incomoda um pouco pelo universo “sexo e drogas” nada poético e lírico, mas mais que isso: presente, atual. Um pai de família divorciado, com pouco dinheiro e nenhum senso de justiça ou igualdade. É, é um bom livro.

Se for ouví-lo na hora de dormir, não irá dormir. Então o faça em outra hora.

Corta para dias atuais.

Sabe quando você está à procura de alguma coisa que ainda não descobriu qual (pois não achou…)? E de repente, cai no seu colo uma estranha ligação? Como se o Cosmos sussurrasse no seu ouvido com uma voz incrivelmente sexy, dizendo “Vem… venha cá”. Estava eu e a velha – A velha e eu, o burro vai na frente – num site, quando olhamos este Link. (É mal formatado, mas a culpa cê já sabe).

Pornopopéia, Reinaldo Moraes. Mulheres, tradução de Reinaldo Moraes. Corri para a estante. Mulheres me piscava. Quem traduziu vocês?

Tradução de Reinaldo Moraes. Que ganhou um dia de Velho Safado, ao traduzí-lo. Como um “obrigado” vindo direto e reto do inferno, onde com certeza está o Velho Safado Original.

Legal a vida.