O Livro mais importante da minha Vida

Disparado, o Livro mais importante da minha vida foi o que me fez chegar até aqui. Tinha oito ou nove anos anos, estava fazendo a despesa do mês com minha mãe e eu lembro que na fila do mercado tinha aquelas prateleiras com bugigandas que ninguém compra, mas todo mundo olha. Hoje em dia aquilo está cheio de chocolates e revistas rápidas, mas antigamente (embora nem tão antigamente assim), Best Sellers disputavam espaço com os livros do Padre Marcelo, a Bíblia e outros de auto-ajuda.

Nem tava tão frio assim, tira esse casaco!

Mas voltemos às lembranças. Estava eu na fila do mercado com o carrinho lotado de coisa, e aquele livro olhando pra mim. Harry Potter. Lembro que demorei até para ler o título, por que eu não era como essa criançada de hoje, que saem do maternal sabendo pelo menos cem palavras em inglês, eu era normal. Daí peguei-o na mão, não pude abrí-lo, folhá-lo e tudo o mais, estava fechado no saquinho. Pedi-o a ela. “Bota no carrinho, se der, a gente pega”.

Acho que no fim das contas, não dava para ela pegar o livro, mas naquela despesa, o ganhei. E foi muito estranho meu primeiro contato com um livro com mais de cinquenta páginas, pois nem a palavra “maleável” eu sabia, tinha perguntar a ela o tempo todo, o que a obrigou a me dar também um dicionário que eu não abria, por pura preguiça.

A partir daí, ficava seca esperando o próximo, relendo os anteriores numa angústia que não acabava mais, até que no terceiro livro, depois de um trabalho da escola (que envolvia teatro e escrever uma peça), peguei um Hamlet adaptado para os palcos que a mãe tinha perdido na estante dela e a partir daí não consegui fazer mais nada. Queria escrever para o teatro de qualquer forma.

Primeiro, como todo mundo, comecei copiando a fantasia que eu gostava em Harry Potter. Até que fui ganhando mais livros, desde Arthemis Fowl, ao conterrâneo Angus. A vida foi ganhando sabores, sabe? Passar o dia metida numa escrivaninha velha, com CDs e Disc Man, um fone de ouvidos, lápis e papel. E horas. E horas. E calo ganho e mãos sujas de lápis 6B, largando o teatro de pouco em pouco, até só sobrarem as prosas.

A vida passa, livros ficam maiores, mais difíceis, a leitora mais exigente. Aquela velha menininha nunca ficou para trás, aquela velha mania de fones de ouvido e lápis 6B na mão. Nada mudou. Fiquei velha, mais gorda, mais chata, internética. Mas a velha eu está incrustada aqui, enquanto essa nova compra livros compulsivamente.

Minha criança interior é magra e veste sapatos da moda. Seu cabelo está sempre perfeito. Tem estilos e gostos maravilhosos. Nunca está atrasada e rejeita chocolate. É bonita, educada e a mamãe ama mais a ela.

Sabe, acho que é isso o que quer dizer “Pesonalidade”. Coisas que adquirimos e não mudamos, acho que no fundo, hábitos fazem parte da nossa própria caracterização. Ou o que será isso, que me fisgou com Harry Potter e não me larga até hoje? Fixação? Não por tanto tempo, eu espero. Coisas que a gente não muda, só é.

Espero (parei nessa palavra tem uns bons minutos e não saio dela) que a nerdinha por seus livros não saia daqui, embora hoje eu ande relapsa, quase desatenta, distante. Pode ser que eu volte louca e desvairada como sempre, pode ser que não.

Que interessa, que um livro de gôndola me fisgou, mudou meus rumos e eu gosto de acreditar que é coisa do destino, nos encontrarmos na fila do caixa do mercado.