Pensar fora da caixa e os danos da Versão Única

Comecemos de um ponto de partida em comum.

Desculpe, está em inglês e tem tradução embaixo, no link

Para quem viu o vídeo (ou já o tinha descoberto antes), ela trata de uma temática que a gente brinca de evitar, que é o maldito lugar-comum e os problemas de uma única versão, de uma única história. Principalmente nas artes, de evitar tudo o que já foi feito, de surpreender o leitor, de ir além do que já foram. Mas ao mesmo tempo, sem deixar que a escrita (que invariavelmente é da única arte que posso falar, já que não nasci para mais nada) se torne algo surreal (no sentido perjorativo) ou inconcisa.

Evitar o que já foi feito faz parte da evolução. “Push the human race forward”, como diria o finado Jobs. As referências dos antigos devem ser preservadas e incentivadas, mas não copiadas. Como da “emulação aristotélica”, que mesmo na cópia, ainda se preserva certa originalidade.

Uma referência pode ser um pontapé inicial, um incentivo para continuarmos, nosso livro de cabeceira, por que não? Mas não nos daremos ao trabalho de reescrever a obra que admiramos, para fazer nosso nome. Nomes importantes são torres difíceis de escalar, não meros degraus. A gente convive com grandes monumentos, podemos copiá-los na cara dura, fotografá-los e de uma ótica totalmente nova, recriá-los. Mas não podemos usar dessas grandes obras para pisar sobre elas e daí criar algo novo. Daí penso: e as teses científicas? Elas não usam de alguma forma as bases teóricas de grandes mestres para alcançar um conhecimento novo?

Gosto de pensar que degraus implica colocarmos o pé sobre o degrau anterior para nos impulsionarmos para frente. Não sei, me parece que assim ofuscamos o brilho do anterior, para alcançar o próximo.

Bons livros são sempre aqueles que quebram paradigmas, que vão além do lugar-comum do ser/estar. Base isso são aqueles que nos obrigam a ler na escola (e não lemos), frente aqueles que não nos obrigam. Psicólogos vem com essa de que livros que nos ensinam na escola deviam ser mais atuais, pois assim os alunos aprenderiam a gostar de ler. Mas senhores, isso não devia ser aprendido em casa? Não foi na escola que aprendi a gostar de ler, pelo contrário, os livros da escola eu detestava. Se na escola aprendemos sobre um livro, não são as páginas que mais importam. Não é a história que fulano conta, ou se “maria beija ciclano”. É a história por detrás, o conteúdo inerente à época, o tipo de literatura antes do livro, frente ao livro quebrador desses paradigmas. Exemplo clássico disso é o próprio “Cortiço”, por que não? Com seu naturalismo e realismo. Na sensual e interesseira Rita Baiana, no português que abrasileirou-se.

Agora, voltando ao vídeo. Estamos sempre procurando algo novo para realizar, ou um retorno às origens, mas não cópia delas. Mas da boca, o que sai? Cagalhões imensos sobre coisas que nos contam desde que nascemos. Exemplo disso é o próprio feminismo. Outro dia estava eu num grupo do facebook e um cara lá começou com a história que o feminismo morreu. Que “queimar sutiãs” não se fazia necessário, pois já tínhamos total direito, que se nos preocupamos com o que vão falar sobre o tamanho de nossas saias, é insegurança nossa, problema nosso e que – isso, traduzido do que eu já li – eu devia procurar ajuda. E quantos não dizem a mesma coisa? Quantos não falam o senso comum sobre a migração no sentido Norte-Sul, na constante migração da capital de São Paulo para o Interior? Do como a galera letrada sai do país por que “não tem intere$$e e que lá fora é melhor”?

Sabe, se a gente for pegar os danos da “single Story”, da única versão, Jornais dão um banho de sabedoria. Às vezes não por que o conteúdo é meticuloso (sim, isso também, mas não é o foco e não são todos), mas pelos comentários daquela tia chata que é chamada para jantar, que traduz todo o pensamento de uma classe social, de um ponto de vista comum e do qual não nos interessamos, não nos preocupamos por que de alguma forma, já estamos acostumados a ele, crescemos lado a lado.

Eu fico aqui pensando qual será a nova grande obra. O que é que vai chocar essa galera. Estamos calejados a sangue e cabeças rolando, os beijos gays estão aparecendo na TV querendo ou não os conservadores e todo o tópico LGBT está saindo do armário, o novo Presidente da comissão dos direitos humanos é palco para esta discussão.

Com todos os conteúdos explorados hoje, o que vai ser a nova literatura de choque? O que vai me tirar do ar, me fazer perder as noites, chocar mesmo a galera, de acontecer polêmica, de ter escândalo e tal. O quê? Chego a pensar que os danos da Single Story é maior que o previsto, que a single story, como faz acreditar a escritora do vídeo e concordo com a moça de olhos fechados, banha todo tipo de argumento. Pensar diferente hoje em dia não é como antigamente, pois os “pensamentos diferentes” estão todos classificáveis, catalogáveis e dá para colocá-los em caixinhas.

O “pensar fora da caixa” já tem uma caixa reservada só para ela.