O livro dos Seres Imaginários – Borges

Querer ler Borges e entender Borges são dois extremos. E garanto: Se consegui ler o bestiário dele, qualquer um consegue.

Não é com todo livro que esse deslumbre acontece, mas com esse, aconteceu. Bastou começar a ler o pequeno dicionário de bestas mitológicas, que já saí caçando um sem-número de outros mais. Borges faz aqui o que nenhum escritor faria em tempos recentes: catalogar com referência mais de cem animais que não existem – ou que pelo menos, não existem mais.

Li umas resenhas por aí e o que achei foi que este livro não é para ler de uma tacada só, é mais para referência. E sim, nisso concordo. Mas, se você não entender esse livro como um catálogo, mas como livro com começo meio e fim, vai logo perceber que não tem problema nenhum de lê-lo numa sentada. Que por sinal, se você gosta de textos clássicos que resgatam a Odisséia e seus semelhantes, vai abrir um pequeno sorriso entre uma página e outra.

O que Borges faz é reunir em toda a vasta literatura que conhece, os seres que mais lhe chamaram atenção. Tem de sereias a Talos. De seres da mitologia japonesa à anglo-saxônica. O que mostra uma imensa erudição do escritor, que conhece os mitos mais obscuros e os escreve com leveza, ao melhor estilo de um vendedor: “Olhe, tem esse mito  aqui que é bastante bom, veja!” e não um estilo pedante chato que joga na cara do leitor “Ah, olha como eu sou bom, eu sei de todos esses contos e sou humilde também, pois distrincho eles aqui na maior boa vontade, pra esse meu leitor burro”.

Uma coisa, da pouca coisa que li de Jorge Luiz Borges foi isso: Ele não subestima quem o lê. Pelo contrário, ele te trata de igual para igual ou superior. Sabe que quem o lê não é uma besta quadrada – salvo umas exceções, como essa que vos fala – e se eu pudesse entrar na cabeça dele, diria que ele prefere que as bestas não o considerem.

O Livro dos Seres Imaginários é daqueles livros que você fica com o google aberto do lado, para digitar o nome das fábulas e mitos que ele cita. E depois, fica triste, pois não acha um sequer, mas tudo bem. De bestiários, que não achei nada em português, vi que a Universidade de Aberdeen, Inglaterra tem um projeto de traduzir do latim um bestiário medieval, chamado Isidori phisiologia. Depois, direto do Canadá, temos um site dedicado a catalogar esses seres, num apanhado Internético rico e infelizmente, em inglês.

Sem dúvidas, esse foi um daqueles livros que nos motiva a aprender mais sobre determinado assunto, sem levar aquele ânimo didático e sem graça. Realmente, pros meninos que curtem história de cavalaria, romanescos e derivados, Borges e seus Seres Imaginários é muito bem vindo.