Hilda Hilst & Fluxo-Floema

Estou tentando fazer uma Biblioteca da Hilst. Ao contrário de todos os blogueiros que estão escrevendo sobre a Hilda ultimamente, ninguém está me pagando para isso. Já tinha lido “A obscena Senhora D” tem um ano ou mais e agora, to adicionando mais volumes. (Mas sim, morro de inveja desses que chegam em casa e tem pilhas de livros de presente na caixa do correio).

É triste que a Prosa de Hilda não seja reconhecida. É uma das melhores escritoras da atualidade e até a re-edição das obras dela pela Globo, era uma estrelinha que não brilhava. E pior, ela sabia que era uma estrela. Perguntava, indignada, do motivo de suas obras não venderem. De seus livros não emplacarem. Enquanto lixos por aí (nacionais mesmo, não vamos muito longe), vendem à balde.

Mas, como dizem os amigos da história, daqui sessenta anos, saberemos o que foi relevante numa época. É assim que saberemos dos presidentes, é assim que saberemos dos livros. Best-Sellers não perduram.

Brecht, Hilst e Gibson. Minha imensíssima coleção da Hilda.

Mas falar de todos de uma vez só não faz sentido. Desta vez, apenas Fluxo-Floema. Se eu ficar aqui falando o quanto os livros que eu posto são bons, perco a credibilidade. (Aham, tenho isso aos montes). Fato é que eu não posto as porcarias que eu leio, só aqueles que ficaram mesmo. Senão, não faz sentido criar isso aqui. Fluxo, claro, foi um desses.

Se bem, que pensando bem, só teve um livro que eu li de cabo a rabo e detestei. Então pra mia sorte, minha estante só tem delícias. E Fluxo me pegou pela prosa da Hilda, mas também pelo conto “Unicórnio”. O quarto dos cinco contos do livro, em que o “Eu lírico” se transforma em Unicórnio, recheado de grandezas. Morrer acreditando na bondade dos outros, enquanto é aprisionado apenas pelas maldades e desleixos dos mesmos. Talvez por isso que tenha se transformado num animal tão surreal.

Em todos os contos, mais nos dois primeiros, ela enche de metapoesias. Escrever sobre escrever, reclamar das próprias mesóclises:

A mesóclise é como uma cólica que vem no meio do discurso: vem sempre. E não é só isso, a mesóclise vem e você fica parado diante dela, pensando nela, besta olhando pra ela. Leva muito tempo pra gente se recompor.

Por ser poetisa antes da prosa, o som das palavras, o gosto delas importam muito. Ela descreve o processo de escolha das palavras, encaixa uma na frase, testa. Coloca outra. como brincar e lego. Só que, diferente da Poesia, você vê o processo. É prosa, é real. E mesmo que seja um conto, um ambiente controlado, não deixa de ser uma coisa fluída, espontânea. Como se sequer tivesse passado por uma revisão, embora a gente saiba que isso não condiz com a realidade.

Não sei, não posso perguntar à própria, mas eu senti em Fluxo-Floema uma leve referência à Blake, principalmente do “Casamento entre o Céu e o Inferno”. Ainda no conto Unicórnio, ela revela o fascínio que tem pelos seres demoníacos, que não tem pelos angelicais. E uma frase me vem à cabeça, do próprio Blake:

Energia é eterna Delícia.

Coisa, ainda no Casamento de Blake, que ele diz que os Céus privam os humanos/seres de conhecerem suas próprias Energias.

Eu não sei se estou certa. Mas taí um livro que você vai ter de ler, para concordar ou não, comigo.

Fluxo-Floema e suas [muitas] Marcações.