Digam a Satã que o Recado foi Entendido

Diga a Satã eu peguei para ler ontem e foi assim, bem rápido. Tem umas pitadas de humor aqui, tem outras aqui e tal tal tal, mas nada que se diga “Senhor! Preciso Reler isso com o máximo de urgência”. Como leitores são leitores e as críticas são de um todo pessoal, não pretendo ficar aqui falando da narrativa usada, dos fluxos de pensamento e tal e coisa, da estrutura do romance, do tempo na narrativa e etecéteras.

…Mas, contudo, todavia, não pude deixar de notar que o livro é todo em primeira pessoa, mas essa pessoa nunca é a mesma. A cada capítulo vai mudando a personagem. Magnus Factor, um imigrante que decide ficar em Dublin depois de se apaixonar por uma Eslovena parecer ser a personagem principal. Digo que parece pois ele começa e finda o livro. No meio, sendo ele um “empresário” do ramo do turismo junto de um amigo Barry e mais dois imigrantes, esses personagens todos vão se contando e contando a história.

Você tem a sensação de que o livro empaca e nada acontece. Fica trocando de voz e de gente e você ali: “Tá, e daí?”, “Hã, e agora?”. E as personagens lá, trocando. Engraçado é que você não tem a sensação de que são personagens parecidas, você, pela fala, pelos adjetivos, pela quantidade destes, da flexão do plural, vai entendendo que é outro personagem mesmo. Tem uns que são bem rasos, são aquele estereótipo de homem escroto e pronto, alguns mais escrotos porém uma escrotice mais velada. E tem também aquele que se considera mulher, mas…

Todos os personagens são masculinos. Todos com uma visão esdrúxula e rasa de que a mulher é louca e que quer dar não importa o quê. Não julgo o autor pela obra, mas ao tratar das mulheres sob a ótica masculina esse cara conseguiu ser bem common sense. Não que mulher seja divina e virginal e tudo o mais, mas pô. Falou de muitas mulheres nesse livro e tudo o que há para ser comentado é do tamanho dos peitos? Daí acontece um lance meio estranho pra mim, de um dos personagens quase estuprar uma moça inconsciente. Ok, direito seu escrever o que quiser. Mas… Qualquer recado que o personagem em questão tenha recebido do satã, foi é pouco.

Acho que com isso, se encerra aqui a discussão do machismo no livro. No fundo, o dito cujo realmente recebeu um recadin não muito bonitin, tentando violar a moça drogadita. Então acho que o título coube bem. Se bem que não se espera que com o título destes, o final seja feliz. (Troco entre dos/das personagens, pois pra mim ambos tão certos).

Há até uma questão existencial dentro do livro, um personagem doente fica se martirizando para se matar/não se matar e sai daí umas coisas bem interessantes. Uma reflexão sobre o tempo e a vida, mas que não me levou a refletir nada. Só tacou nas páginas, eu li, ele ganhou dinheiro e eu vim aqui escrever isso.

Sobre o autor, vi que Daniel Pelazzari escreve sobre Games num jornal e isso ficou bem claro para mim que era coisa dele, do escritor e não das personagens, quando uma das personagens começam a falar sobre isso:

… Mas deixa de ser idjota, parcêro. Eu cresci jogando Game Boy, porra. Pokémon me ensinou tudo que alguém precisa saber sobre esse negócio de bicho estranho.

E tem mais, muito mais. Coisas sobre Zelda 2, um personagem que chega de Link sem a Zelda, a preferência de outro personagem por jogos de aeronaves.

O que me chateou mesmo no livro foram esses lugares comuns. Mulheres loucas, homens quadrados, fobias de estrangeiros, bebedeiras sem fim, nerds que deviam ser gordos, mas não são, a volta de uma namorada que foi magra e voltou grávida… Sabe? Pegue cinco imbecis amigos seus, coloque-os no papel e não precisa dar nem nacionalidade diferente para o caboclo. No fim, isso é o que menos interessa. Não me atém que personagem X é Irlandês e o Y é Grego. No fim das contas, o que vai mudar mesmo é o nome.

Alguns inclusive, que eu nem sei como é que fala.

Daniel Pelazzari, Companhia das Letras - 178 Páginas.