Minha saga ao ler Neuromancer

Comentei tem um tempão que comprei Neuromancer de Willian Gibson.

… Mas o problema foi que naquela época eu comecei a ler assim, despretenciosamente. Não sei quanto tempo eu li do coitado, mas sei que não foi assíduo. Fato é que entraram umas leituras na frente e eu acabei esquecendo o filhote na estante. (Que fica bem na altura dos olhos ao acordar E dormir).

Daí quando eu o peguei para continuá-lo, li por um pedaço e já nada mais fazia sentido. Que diabos ele queria dizer com “Flipar”? Ou quem era Marcus Garvey? Nada mais eu me lembrava. Mas teimosa que só, segui ainda por um tempo até chegar a menos de cem páginas do final. Conclusão? Larguei de novo.

Então, imponto a necessidade de terminá-lo, ontem eu me obriguei a pegá-lo e só largá-lo quando visse o final dele. E hoje isso aconteceu. (Êêêêêê!!)

Willian Gibson com Neuromancer conseguiu ganhar os três prêmios máximos da categoria Ficção Científica (Nebula, Hugo e Phillip Dick). Escrito em 1986, a trama linear conta a história do Cowboy do Ciberespaço chamado Case, que foi banido de praticar aquilo que nasceu para, depois de trapacear seus antigos chefes.

E assim começa. Case gastando seus últimos neoienes para reverter a enzima que o baniu do ciberespaço, se alimentando de Krill frito, cervejas e cigarros. A namorada até o rouba, tentando fazer um dinheiro fácil numa RAM de 3GB.

Claro que eu vou parar com essa minha tentativa de fazer uma resenha super séria e tal e coisa, por que eu não sou disso. Em contrapartida, vale a pena dizer que Neuromancer foi o primeiro livro da saga do Spraw (Spraw é um lugar) e depois vem mais dois que já estão aqui em casa no mesmo tempo que o Neuro, mas intocados e batendo palminhas de novo.

Gibson conseguiu criar aquela mesma atmosfera dos filmes de ação, mas sem aqueles apelos visuais e sonoros que tem neles. É uma coisa muito mais requintada. E todo mundo que já viu pelo menos “Eu, robô” ou “Matrix” vai relacioná-los ao livro. Fato é que o livro veio antes. A trama é cheia de indas e vindas, tem umas partes que você entende, mas não entende. Eu gosto assim, quando o autor não se dá ao trabalho de mastigar tudo bonitinho pra gente, explicando por que 1 + 1 = 2, mas deixando a gente se ferrar um pouquinho, relendo e lendo até entender que catso ele quer dizer.

Gibson não nos subestima. Acredita que somos inteligentes o suficiente para entendermos sozinhos. E quanto às Inteligências Artificiais, eu digo: elas são o novo deus. Tem uma teoria que eu aprendi com alguém muito (muito, muito, muito) próximo de que se não existe deus, nós o criaremos. A gente alimenta bancos de dados alheios com tanta porcaria, que uma hora os computadores saberão quais serão nossos próximos passos. E aí nós não faremos surpresa de nada a ninguém. Se já tem gente nos vigiando a cada passo dado na internet, imagino quando eles ditarem nossos perfis e souberem exatamente que refrigerante compraremos na venda da esquina com nossos cartões de crédito.

Inclusive, não é só facebook, tuíter e derivados. Cypherpunk do Assange já fala do quanto nossos cartões de crédito passam por um único país para processar um pagamento, então, se cruzarmos nossa vida bancária com nossa vida virtual, temos um perfil. Coisa que em Neuromancer isso é até usado por um IA, ao traçar o perfil e predizer os atos de dado personagem.

Outra coisa bem clara no livro é o domínio de empresas sobre pessoas, sobre a vida delas e de governos. Empresas que são donas de cidades inteiras. E é isso o que um IA quer ter, quer poder decidir. Um IA que aspirar ser a própria Matrix, ao se fundir com outra IA.

É uma história, num livro bonitinho de capa pretinha e tal, mas que dá cabo para relacionar a muitas coisas atuais e muitas coisas que não estão muito longe de acontecer, que um  amigo já havia me recomendado uns anos atrás, mas que eu na época não tinha A.) Nem dinheiro e B.) Nem uma edição nas livrarias. Essa edição da Aleph, assim que vi, foi algo como saltar em cima dele e pegar, antes que se esgote de novo e eu tenha que apelar pra PDFs na internet (Como eu já tinha feito, mas que também já tinha largado num dado momento).

Ah, outra coisa de ir embora. Estando eu ainda indignada como em pleno século 21 um ser pode escrever tão rasamente (existe?) sobre um personagem feminino, fica aqui a minha felicidade a saber que quando Gibson foi escrever sobre Molly, uma Razorgirl que ajuda Case nos paranauê, ele não a fez nem louca, nem pirada, mas sim muito, mas muito bonita e eliptica. Dá até gosto de lê-la, pois quando ele trata dela não é como se ela fosse uma Assassina Sexy. Ela fala como um assassino de aluguel bem clichê mesmo, age e anda como um. Mas quanto mais avança a história, mais vê que ela não é só isso. E Case não a trata como uma vadia, embora ela tenha transado com ele quando lhe deu na telha. Coisa em 1986, hein? Que era até entendível que sujeito encarasse mulher que fizesse sexo (eu ia dizer trepasse, mas aí ia cair muito o nível, né?) no primeiro encontro como vadia.

Molly é uma assassina com seus problemas, mas uma mulher inteira. Corajosa, linda de morrer e sem aquelas frescurinhas que os homens costumam achar que têm as mulheres. Se sente dor, não fica por aí esperneando como uma garotinha. E ao falar dos problemas, ela não fica de mimimi, nem se põe a chorar como uma “vadia louca”. Ao viajar para um país onde um nativo diz “Ainda tratamos nossas mulheres como mulheres”, o narrador não poupa o leitor de que aquele se trata de um país atrasado em tudo. – Embora em minha opinião, ele tenha sido um tantinho tendensioso em outros fatores sobre o atraso deste país.

Ó, tá de parabéns. Deu um banho no senhor “Gamer Nacional onde Nerds são gordos e as mulheres loucas”.

Willian Gibson, Neuromancer - 319 páginas - Editora Aleph