“Under Pressure” Ou – Sob a Redoma

Das graças de ler no ereader, eu penso, sejam duas: Não carregar tarugos imensos em mochilas e ler no escuro completo. Lembro de mim, aos dez anos, com uma lanterninha debaixo do cobertor, lendo as páginas de Harry Potter. Não posso me lembrar exatamente de qual deles, mas era o dois ou três. O um, eu li na cama da minha mãe – e tomei muitas broncas por isso.

Hoje, já velha, com uma cama tão grande quanto era a dela, a graça de ler debaixo da coberta ainda não acabou. É quentinho. E confortável. Só que não dá mais para carregar uma lanterna para a cama – quero dizer, até dá, mas haja braço para isso.

Bom que inventaram o ereader. O kobo roubado do namorado (que eu dei de aniversário, mas que ele nunca usou). A tela que parece papel, tão confortável e tão prática. Ler 1269 páginas sem ficar com a mão doendo. Creio que até mais rápido eu li, por que não houve o tempo de virar página, ajeitá-la e depois sim ler. Só tocar no cantinho direito e subir os olhos. Fiz meu melhor tempo, também. 25,4 horas de leitura. Não ininterrúputas, por que eu sou filha de deus. E teve jogo do Brasil.

O que eu li foi o que está todo mundo lendo. O tarugo de Stephen King, publicado em 2009, “Sob a Redoma”. Ô troço bom. Deitadinha na minha cama, ontem, terminei de lê-lo e ficou aquela sensação boa de gordinha gulosa que diz: foi bom, tá bom, mas eu preciso de mais, maaaaaaais! E aquela outra sensação de um filhote que parte. Que a gente vai deixar perto dos coração, mas longe dos olhos. Não gosto de reler. Acho tempo perdido. Eu sei o que vai acontecer, não tem surpresa. E isso é perda de tempo, pra mim. Tem quem goste, ok. Mas eu não.

Que nem livro com filme. Se tem filme, desculpe, mas para que eu vou ler? Até comprei o box completo do “Jogos Vorazes”, mas eu preferi ver no cinema. Tirando aqueles cliffhangers babacas, me pareceu um filme satisfatório. Perda de tempo ler. Pra mim, se não tem aquela graça do “O que vai acontecer depois?”, não serve.

Mas Sob a Redoma tem serie. Começou a virar um frenesi, me contaram. Só não tem na netflix, que é uma pena. Mas a internet é grande. Eu quis ler o livro justamente para ver a série. Lá pelo meio do livro, que eu vi o piloto. E detestei. Vão fazer o livro – que de pequeno passa longe – durar uns cinco anos, para mais. E eu sei que o isso vai me irritar, por que eu sei o final! E a série começa antes do livro, então suponho que comecem de verdade o livro, lá pelo final da primeira temporada.

A graça do livro é a coleção de personagens. Muita gente de uma cidadezinha de dois mil habitantes. Colagens de acontecimentos que vão se unindo para costurar um acontecimento maior ainda. Óticas de gente que não tem lá tanta importância, sobre fatos chaves. Todo mundo com nome e sobrenome, que conhece todo mundo, com nome e sobrenome, que na época da escola se relacionava com gente com nome e sobrenome. Todo mundo com vícios, com gracejos, com piadinhas. Coisas engraçadíssimas, de gente simples.

O que me irrita nos romances americanos são a quantidade de celebridades que eles fazem questão de citar, mas que tem sentido só para eles. O bom, é que a tradução deu uma boa ajuda.

Outra coisa boa nesse livro, além de tudo. (O livro todo é bom, então esse post é um pout-purri de elogio ;)). É, como o autor fala no final, é que ele quis manter o pé pressionado do começo ao fim. É cheio de idas e voltas, cheio de suspenses e as seções, embora longas, têm capítulos curtos. Quando um capítulo fala do evento X que acontece com personagem Y, vários capítulos depois, temos a continuação do evento X, pela visão do personagem Z. Você não se identifica com nenhum personagem e morre de raiva tanto pelo mocinho, quanto pelo vilão. O vilão tem e está na cara e você morre mesmo de vontade de matá-lo. E King coloca um problema no coração do vilão, mas a raiva do leitor é “Não, não é assim que ele tem que morrer não, assim é muito fácil. TEM QUE SER DE MORTE MATADA!”. Penso que talvez nem tenha um protagonista declarado, por que todo mundo tem seus minutos de fama, só tem aqueles que perduram e aqueles que não. Uns que se dão bem e uns que não.

Mas seria injusto da minha parte dizer também que todos os personagens têm peso igual; isso não. É mais como se divisisse, dentro da redoma que cai sobre a cidade a tal do Eles X Nós. O vilão age como se ele fosse o Nós, o enviado divino para salvar da cidade e muitas vezes ele se iguala a Cristo. E os mocinhos, é que são os Eles.

Foi muito bem arquitetado, do começo ao fim e embora as páginas sejam muitas, não é do tipo de livro que você fica olhando a página que está, para ver se falta muito para acabar. Você senta o rabo na cadeira (no meu caso, relaxa o esqueleto todo na caminha quentinha), depois vira a noite e nem percebe. Só pára, meu caso, quando os olhos não focam mais. E volta no dia seguinte de manhã.

Também, os acontecimentos são muitos, se você é do tipo que não lê todo dia, pode bem se perder na história. E achar isso uma droga. Então, se for pegar para ler, ou leia um pouquinho por dia, ou espere as férias. Só não abandone e queira voltar, que o King é um autor cruel e não te aceita de volta.