Bukowski era um Henry Miller com mais pau

E comia mulheres melhores.

Se bem posso me lembrar, se bem pode a memória tomar conta desse detalhe, digo, Bukowski tinha um pau de 19cm e o Miller, só 15. Eis a prova cabal de que tamanho não é documento. Pelo menos, para as francesas.

Ambos se contentavam em chamar suas mulheres por “bocetas”, ou “vulvas”. Um decidiu passar fome nos Estados Unidos e o outro teve de ir para a França. E escreviam sobre isso, a vida do ponto de vista da fome, da miséria. Todos conferimos à pobreza certa genialidade, mas se o leitor me permite dizer, não é a pobreza que confere qualquer coisa à eles, mas a falta de medo, o fogo nos olhos, a observação. Hemingway disse certa vez que um escritor tem que saber descrever uma pesca, do momento da espera à fisgada fatal – pelo menos para o peixe. Miller e Bukowski deram isca para pessoas. Viram a loucura, o gozo e a miséria e se sentaram para escrever. Passaram pela vida como quem passa por um túnel – sem levar nada. E ao mesmo tempo, dela levaram tudo, das menores impressões aos grandes momentos. Bukowski, sim, eu sei que você sabe, a regra número um é não subestimar o leitor, passou quinze anos no serviço dos correios. E Miller, à mercê de um Indiano sovina. Souberam passar pela vida.

O Livro só é bom quando te deixa ruim consigo

Fazer da espera uma experiência. Fazer do trabalho as férias. Não temer passar fome, nem frio, nem solidão. É saber que não somos, nem seremos completos. Aceitar o próprio tamanho. É uma coisa muito estranha essa, de saber esperar. Em pleno século 21. Não ocupar-se de experiências vazias pelo simples (fiquei parada nesse “simples” por bons minutos). Pela simples nadafazença. Não rolarás o feed por ócio. Explorar humanos, sem distinção. Se os loucos é que são os gênios e nós não o somos, observemos então! Observar e viver são coisas diferentes? Transar e ser vouyer o são? Resultam em alguma coisa semelhante, no final. Assino.

Separar os olhos das mãos. É isso o que fizeram. Conferir poesia à vida dura, como tem muito fulano que diz que é esse o trabalho do escritor, quem faz é quem vive. Todo dia no ônibus e no metrô a gente vê uma coisa maravilhosa acontecendo. Não digo maravilhosa no sentido único, o de bom. A gente fica mal acostumado com os cinemas, os finais felizes. O metrô, o trem, sei lá que mais meios de aglomeração humana que certamente não queria estar ali posso dizer. É a poesia da vida. Pessoas estão lá, estão fazendo coisas, mesmo que seja rolar o feed, que seja. Elas são as donas de suas vidas, cabe a nós os olhos.

Tem uma teoria da física que diz que o universo só existe por que tem alguém olhando. Um violinista que toca no metrô das Clínicas e ninguém vê, mas todo mundo vê –  por que passa.

É tópico velho, todo mundo sabe. A escrita (deixa eu ser mais ampla) pereniza. Faz existir mais e melhor do que é. Foi por isso que cantaram os varões e as armas. Henry e Bukowski fizeram o contrário, eternizaram exatamente como é, ou como acreditaram que tenha sido. Por que o jeito que as coisas são é belo. O estilo também está no não-adorno. Nas parcas metáforas e na verdade quase tão nua e crua quanto a realidade, somando o observador.

Ninguém deixa de cultuar um corpo sem photoshop, é com ele que nós gozamos. Haverão marcas e cicatrizes, talvez.

Não recusaremos nossos amores, sejam eles quais forem, por não estarem sem perfume, sem maquiagem, sem uma bela roupa. É também sem tudo isso que encontramos nosso prazer. Nos pés sujos e descalços. No suor e nos fluidos nem sempre doces. Mania essa, a de ir além disso.

Anais Nin gostou dos quinze centímetros, não exigiu mais. Não colocou tanquinho, nem melhorou seus cabelos e ainda sim deu-nos uma história boa. Bukowski não tirou a mania por cigarros de suas putas, nem desfez-se de suas merdas de cerveja, nem melhorou o comportamento de seus pais. E ainda sim rendeu-nos uma boa história. Por que diabos então que eu, na várzea que sou e que me encontro, tenho que me preocupar em entregar para meus filhos uma história imaculada? Eu não posso contar para eles como vadia sem coração eu fui algumas vezes e quantos “foda-se” meti aos meus conhecidos que queriam desabafar? Não posso dizer-lhes, quando tiverem idade para entender: “filhos, mamãe deu mais que chuchu na cerca e quero que vocês façam o mesmo”? Criarei filhos para o mundo, isso é certo. Não é por isso que tenho que criar homens e mulheres de bem que obedeçam uma ordem social. Eu é quem serei responsável como o mundo estará, caso eu repita a eles que eles têm que se casar de papel passado, com uma única pessoa pelo resto da vida, passando vontade por qualquer pessoa que olhe pela janela.

Parte do meu trabalho vai ser justamente mostrar Bukowski e Miller para eles. Não torná-los exemplos de uma boa vida, não posso eu, sendo como sou e quem sou, mostrar isso a eles, justamente por que eu ainda estou tentando chegar a um modelo satisfatório de “boa vida”. Quero mostrar que algumas vezes eles têm que recostar a cabeça e observar. Só dar trela a quem quer falar, só observar com quem se transa. Ver, mas ver mesmo, profundamente. Se é pela observação que a gente aprende, então que eles tenham olhos bem grandes e bons óculos, se for o caso.

E se quiserem escrever seus relatos num blog qualquer de internet, eu ainda sim lerei. (Reclamarei se escreverem com a bunda, se caso eles leiam isso lá para muito à frente).

  • Cyntia Carla Rodrigues

    Comecei a ler seu livro ”O próximo homem da minha mulher sou eu” no Wattpad e estou amando.
    O blog também é show…
    Parabéns!!!