Meus primeiros contatos com o Marquês de Sade

Todo mundo tem curiosidade. É falar da história dele e a gente fica com a pulguinha atrás da orelha. Coçando. Há, eu sei, quase um sacrilégio, quem nunca tenha ouvido falar dele.

Mas “Marquês de Sade” é uma das coisas no complexo movimento da terra (que eu nunca vou entender) que provoca curiosidade fulminante. Um Google e você já quer ler até os bilhetes que o homem deixava para a serviçal. É muito interessante, no mínimo, uma pessoa que torturava as outras por seu próprio prazer e foi preso na Bastilha (!) denunciado pela esposa e mais umas moçoilas por aí.

A gente acha o Marquês pelos estilhaços que sobrou dele, nesses dias. A gente acha o Marquês pelos 50 tons. E está tudo bem. Se não fossem os ruídos, nada teria sobrado, senão um seleto grupo que o cultua fervorosamente do qual, (pense você leitor o que quiser) eu não faço parte. Sério, até curto ler, mas acho muito… além de mim. Enfim.

Mas eu achei o Marquês acho que como todo mundo, ouvindo alguém falar, num blog da internet, ou coisa assim. Na época que eu ouvi sobre, sequer Crepúsculo era livro, vá lá 50tons. Não é para dar uma de “I knew it before it was cool“, sério. Na época, para você ver, não tinha uma edição no mercado. Só PDF dos amantes. E foi por eles que eu comecei. Li alguns, não vou mentir, blindada. Me preparei para aquela coisa toda de sangue e choro e zás. E não teve. Li uma coisinha tão sem graça que eu, sinceramente, estava achando o trovão que seguia toda vez que eu ouvia seu nome era puro marketing.

Abandonei. Fui para o “pai” do masoquismo. E adorei muito mais, muuuuito mais. Aviso: não contém nenhum absurso +18, a história é simples, o que fizeram com ela é que está toda a graça. Passeando pela biblioteca municipal achei uma coisa muito peculiar: A mãezoca do feminismo, Dona Beauvoir, falando de Sade em “É preciso queimar Sade?”. Aluguei, claro. Ele, mais um do próprio autor.

“Donatien Alphonse François, que nome mais bonito!” – Me disse a bibliotecária, lendo a lombada de um dos livros do Sade com seu sorriso manchado de muito café e muito cigarro.

E eu só acenei com a cabeça, segurando a mochila da escola à frente do corpo como um escudo anti-vergonha. Não era possível que ela não conhecesse o livro que segurava. Fiquei vermelha rapidinho, peguei meu cartãozinho, meus livros emprestados e voei para casa. A minha grande sorte sempre foi morar perto daquele lugar. Essa foi a segunda tentativa.

Ao passo que abandonava e voltava para este velhaco tarado, nunca o abandonei por completo. Temos uma relação de amor e de ódio. Li “120 na Alcova” num congresso médico. Quando a Hedra começou a publicar essas maravilhas novamente, lá estava Camila gastando seu dinheirinho. Feira do Livro? Bienal? Qualquer dia ainda tenho todos, inclusive os PDFs que li. Justine foi em PDF, esses dias atrás. Um PDF que se caso fosse impresso, estaria todo amareladinho.

Só hoje reparei que tenho dois “Discursos Ímpios”.

O Marquês, ao mesmo tempo que marca a contravenção da ordem, a mantém. Justine, que está mais fresca na cabeça, é uma lição de moral digna de um sermão de Padre. “Discursos Ímpios” é um diálogo ele entre e um padre, perguntas sobre a bíblia, sobre o universo e tudo o mais. Foucalt vai dizer, em sua História da Sexualidade, que a literatura erótica de Sade é uma resposta inconsciente às confissões que eram feitas aos padres. Nas confissões era exigido que contássemos nossas taras mais cabeludas. Sade as escreveu. E depois, ainda no volume primeiro de sua “História da Sexualidade”, que para Sade o que importa é o sangue. Se a burguesia se importava com a prole, Sade, Marquês, se importava com o sangue. Pode ver que suas vítimas estão em condição de desgraça pessoal. Sade, pelo menos nos livros, sempre dá um jeito de diminuir a importância dos castigados. Mesmo em 120 dias.

Em tempo: Queria dizer que escrevi esse negócio ao som de Velhas Virgens, Ninguém Beija como as Lésbicas - Música e Álbum. Se estiver um lixo, saiba que tem-se cá um culpado.