Não somos tão criativos quanto pensávamos

Atingir o Novo em pleno século 21 é mais importante que qualquer outra coisa. Novas ferramentas no mercado. A cada dia, um App e um joguinho de celular são lançados. E com a mesma velocidade (isso é, descontando o tempo prévio de desenvolvimento) a novidade esmaece. Três novidades para ocupar o posto. Alguém ainda se lembra de Angry Birds, que até brinquedinho de Mc Lanche Feliz virou? Agora o diretor da Rovio deserta – está em busca da mesma glória, mas o produto já não o satisfaz.

Mesma coisa acontece em qualquer outro campo de atividade humana. Na música, no teatro, nos filmes. Nos livros. Estética nova, estilo novo, neologismos. Um blog novo por dia (contando com o meu, que tadinho, vai fazer um ano), cinquenta canais novos no youtube. Todo mundo querendo se sobressair do mar de mediocridade (entenda, não coloque carga negativa na mediocridade). Todo mundo querendo uma nova forma de chamar atenção do consumidor.

Não dá para chamar arte de “arte” hoje em dia. É tudo produto.

Só que… Vejamos. Qual meio cultural hoje não trata de amor? Noção ou não deturpada desse amor, mas amor? Quer tópico mais velho que esse? Escrever um poeminha de amor. Escrever sobre amor e guerra. Atire a primeira pedra quem nunca viu/ouviu algo sobre esses dois temas. As armas e os varões; a amada na janela. Vou usar aqui um exemplo que (cof, cof) fui eu quem traduzi:  Clique aqui para ver o original!

Isso é Safo. Que ninguém sabe se foi homossexual, se foi mulher, se existiu. Para a lírica grega pouco importa quem é o autor do poema e muito menos quem é ou “eu” do poema, mas nós, leitores modernos, estamos sempre à procura. Então, arrisco-me, sob o risco de cometer injúria (óóóóóó), que Safo existiu e que casou-se com um homem rico. Ela não era loura como Helena, a tez era mais escura que o padrão “de beleza” grego, mas que Platão a chamou de “A Décima Musa”. Dizem que ela era professora da Ilha de Lesbos (como a escola de “princesas hoje em dia”) e que caiu de amores mais que uma vez, por suas próprias alunas.

Daí vem esse poema. Repare no momento que ela iguala dores físicas às dores do amor. Como se sofrer de um fosse a mesma coisa que sofrer de outro. Quer tópos mais antigo que esse? Dor do amor? E a gente ainda faz dinheiro com isso, hoje em dia. (Veja, isso não é um problema). No CD “greatest Hits” Do Bon Jovi quase todas as músicas tratam exatamente dessa temática. Mas separemos apenas uma:

Outra comparação que ela faz, pedindo a interseção de Afrodite: o amor E a guerra. Como conquistar uma pessoa fosse a mesma coisa que conquistar um território. Repara nisso, direto do túnel do tempo, revivido no filme “De repente 30”:

 

Eu sei, não precisa ser um gênio para saber que existem exemplos até bem melhores que esses que eu coloquei. Mas veja, talvez seja pretensão nossa, em pleno século 21 reinventar a roda. Tudo o que poderíamos falar de amor já foi dito. Só que, engraçado, a gente sempre pensa que conosco é diferente. É, penso eu soando bem mais mela-cuecas do que preciso, de feitio humano, o amor. Antropólogos acreditam que o amor é o “instinto de preservação” da raça humana. Pode isso? Essa sofrência toda, ser o motivo de a gente estar aqui? Inventando aplicativo e joguinho de celular, ganhando dinheiro na internet, se sentindo o rei da cocada preta, quando na verdade… já falam do amor há mais tempo do que Cristo foi vivo?

Talvez seja a hora de a gente parar de achar que “tudo é novo” e dar os devidos créditos. Por que essa procura pelo  “novo” nada mais é do que a repetição (e repara bem que ninguém vê o repeteco com bons olhos, tirando as vezes que você se descontrola no almoço da sua avó – e quem não repete a vó fica brava) de assuntos já tão batidos que ficam assim, no imaginário comum.

Claro, tudo bem falar do assunto que nunca tem fim, desde que você não repita o “como” isso foi abordado. E é verdade. E é por isso mesmo que esse post foi feito. Não há no mundo um assunto que não tenha sido falado. A gente ficou fluente em narrativa complexa justamente por que nos bombardeiam com histórias bem contadas. Acho que aí está a Graça da Coisa (sem querer citar Martha Medeiros, mas já citando). Tudo bem você querer escrever um romance. Desde que você saiba me guiar por um caminho cuja paisagem não seja a mesma que já encontrei antes. Por mais que saibamos o final e o propósito da viagem, por favor, me surpreenda com o caminho!

E eu não vou nunca dizer que você estará copiando. Direi, como leitora, que você está fazendo um ótimo trabalho.

 

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Para a tradução, esse material de referência foi usado:
Bibliografia:
RAGUSA, Giuliana. Lira grega: antologia de poesia arcaica. São Paulo: Hedras, 2013;
RAGUSA, Giuliana. Fragmentos de uma deusa: a representação de Afrodite na lírica de Safo. Campinas: Editora da Unicamp, 2005;
PAGE, Denys. Sappho And Alcaeus. Oxford: Clarendon Press, 1955;
LIDDEL, H.G.; SCOTT, R e JONES, H.S. Greek-English lexicon with a revised supplement, 9 ed, Oxford: Claredon Press, 1996.