Parem de Romancear Bad Boys

Como alguém que escreve, tratar de Bad Boys e Mocinhas parece um tiro no pé. Como alguém que quer ser lida, tratar de algo que todo leitor de romance já leu alguma vez na vida parece insensato. Uma espécie de ofensa, só que não é.

Não é para ser, não se trata disso.

Reclamar da romantização de Bad Boys nos romances é mais do que falar mal do que os outros escrevem. Vê, eu não sou ninguém para criticar o que os outros estão escrevendo. Eu olho para as minhas cagadas e só isso já o suficiente para que eu fique quieta.

Só que me incomoda. O cara mau (e, de quebra, orgulhoso) que pega a bonitinha/nerdizinha/sem sal da escola/faculdade/trabalho e no fim, se apaixona por ela. Adicione também, no meio, uma moça foda, orgulhosa, bonita e gostosa, que vai se rastejar loucamente pelo Bad Boy e também vai somar um time de leitoras querendo o pescoço dela. A tríade da trama está montada: a moça sem sal que vai se transformar numa leoa, (a mocinha), o bad boy que vai se apaixonar e a vilã recalcada que vai querer que os dois se separem.

Os problemas começam daí. No backgroud da história: Ele come todo mundo.

O pau é dele, ele paga as contas dele e ninguém tem nada com isso. Verdade. Mas ele só faz isso porque ele pode. Ele pode. É essa a verdade que me irrita profundamente no bad boy. Se ele fode com uma no almoço, outra na janta e ele o faz porque lá no meio do livro o leitor descobre que o coraçãozinho dele foi ferido por uma megera sem coração. (Ô dó).

E, depois desse terrível fato (como se só ele tivesse tomado um pé na bunda, dentre todos os humanos e todos os tempos da humanidade) ele mete o peru em qualquer rabo de saia que vê pela frente. Ele come as mulheres que come, com a frequência que come porque tem ódio da megera do passado. Quer esquecer ou descontar. Quando uma delas que ele come se apaixona por ele, ele lhes dá o troco. Quebra-lhes o coração. Manda-lhes passear e destila uma boa dose de veneno porque isso o faz bem. Na mente doentia do Bad Boy, ele equilibra o Universo quebrando o coração de uma moça aleatória, assim como quebraram o dele.

Ele não transa porque gosta de sexo, ou porque gosta das moças, ou porque só quer um bom fim de semana. Ele transa para descontar.

Aqui está o fato: o bad boy odeia mulheres. É forte, esta expressão? Super. E o mau caratismo dele, o que é? Zero consideração pela moça, pelo alvo.

É certo, a moça também pode estar nessa pela brincadeira e diversão, sem querer compromisso, mas nunca é o caso, nas histórias com Bad Boys. O objetivo, mesmo que não explícito, é foder não só o corpo, mas com a cabeça das meninas.

Aí, quando ele beija a mocinha e ela não dá o que ele quer, ele fica atrás dela até conseguir. A mocinha também é orgulhosa. Também é turrona. E isso não é ruim. Só que ela vai constantemente dizer que “não é como as outras”. Ela vai se considerar especial até nos pelos da perna (que ela nunca tem). Ela não vai ser “um número”, “um prato no cardápio”. Porque é isso o que “as outras” foram.

Quando a gente lê este tipo de história, a gente sempre se identifica com a mocinha especial. Só que para algumas parceira de nossos ex, nós é quem somos “as outras”. As vacas, as putas.

Para as outras, nós sempre seremos as putas. Se somos amigas de um homem comprometido, a esposa dele nos considera “as amiguinhas”. Sempre vai ter alguém nos chamando de nomes feios.

Esse é um dos motivos que eu odeio história de Bad Boy. Porque nós nos colocamos melhores que fulana. Crucificamos fulana porque ela comeu o que “é nosso”.

Nós pensamos que somos especiais e que o Bad Boy vai mudar “porque nós somos diferentes”. Só que não somos. Quando formos nós a quebrarmos o coração de cristal dele, ele vai descontar nas outras o ódio por nós. Porque ele pode. E, de “moça especial” em “moça especial”, ele vai ferrando um monte de moça legal no caminho.

Fato é que o problema não são as “moças que se sentem especiais”. Ele é o problema.

Ele sabe que ninguém vai julgá-lo por transar demais, quem será julgado não será ele, mas as cadelas e putas com quem ele esteve.

Vai um escritor colocar uma moça no lugar dele. Uma Bad Girl (?). A Geni nunca vai ser a mocinha. A mocinha talvez tenha seus dramas pessoais, talvez venha de um lar perturbado, talvez seja uma ótima profissional, mas nunca, jamais será a Geni.

Nós queremos nos casar com os Bad Boys, mas não queremos, jamais, que nossos filhos se casem com a Geni.

A Geni, para o Bad Boy, não representa desafio. A Geni “dá pra qualquer um” e o Bad Boy quer desafios. Quer domar bois brabos. Quer quebrar corações, quer incendiar camas e cabeças. É isso o que o Bad Boy faz. Quebra moças. Engana, diz “eu te amo” sem um pingo de amor, mente, mascara. Ele faz moças legais rastejarem, virarem número.

E talvez todas as moças do cardápio pensem que com elas “será diferente”.

Nós somos acostumadas a supor que o menino que puxa nosso cabelo, cola chiclete nele, nos xinga de coisas cabeludas o faz porque gosta da gente. Porque meninos são treinados para odiar mulheres. E nós encaramos esse ódio como sinal de amor.

O bad boy coloca mulheres umas contra as outras e se aproveita de que não é ele que ganhará a fama de puta. Ele nos coloca umas contra as outras em troca de um troféu de “olhe para mim, mundo, eu quem domei esse cavalo!”.

Ele é vingativo. É egocêntrico. Por que alguma mulher se interessaria por um cara desses?

Nos é demandado que aguentemos caladas às nossas angústias e frustrações. Então por que o Bad Boy não faz o mesmo e para de usar mulher para isso? Que ele entre na terapia! Que procure um hobby, adote um cachorro, troque de emprego. Bad Boy é um garoto que não cresce.

E ninguém vai querer chamar um moleque por marido.

Uma coisa não tiro deles: Eles são displicentes, sagazes, quebram regras, são criativos. E é ótimo, tudo isso. São qualidades que eu admiro. E dá para fazer um bom enredo, uma boa história, me fazer chorar e sorrir, sem precisar quebrar e difamar outras mulheres no caminho.

Porque na hora em que a mocinha que “não é mais como as outras”, entra no altar, disser “sim” e tiver dois filhos e um tanque cheio de roupas para lavar, não é o quanto ela é “especial por ser diferente das outras” que conta. É a integridade do marido e o quanto ele aguenta do tranco.

Então, por favor, paremos de romancear moleques e comecemos a romancear homens. Lindos, gostosos, bombados (ou não), cheirosos, que cuide de nós e dos filhos (se acaso filhos estiverem nos planos), que cuide da casa. Que sejam bons, que sejam adultos, que sejam maduros. Bobos e engraçados, também. Um universo adulto, romântico, erótico (por que não?) onde não tem espaço para molecagens e baixezas. Assim como demandam que nós, mulheres, sejamos.

‘Bora erguer um padrão aceitável de homem e ‘bora parar de menosprezar as outras que vieram antes de nós. Nós também já fomos as que vieram antes na vida do boy de alguém!

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