O Boom dos Romances Eróticos e o que você tem a ver com isso

Já diziam os árabes que as mulheres são seduzidas pela narrativa e os homens, pelos olhos. A gente, enquanto mulher (de carne e osso, praticante involuntária do celibato, por vezes) quando se interessa por uma foto masculina, olha tudo. Até a manchinha na parede. A gente quer ver se ele é gostoso, é claro, mas quer ver se ele também é cuidadoso com a aparência. Um homem cheiroso de barba bem feita tem seu valor, mesmo que ele não tenha tanquinho (mas se tiver, pode mandar pelo correio, tá?). Um homem bem arrumado tem seu charme.

Nos livros, a gente imagina aquele homem, mas a gente não o vê. Se a escritora me diz que o mocinho é alto, encorpado, com uma voz grossa, cheio de atitude e com uma pegada de derreter gelo no Atlântico, eu do lado de cá já estou toda molinha. E se ele for encantador nos diálogos então, pronto, não preciso da foto do pinto dele em close microscópico. Antes de chegar no vamos-ver, tem muita coisa que uma autora pode fazer por mim.

Enquanto tem gente que reclama que livro erótico é coisa de mulher, que muita gente decidiu escrevê-lo por que tem quem compre, eu vejo um meio de libertação. Eu vejo, enquanto os “haters” estão reclamando, que muita gente foi conhecer o próprio corpo depois desses livros. Soube como é gozar sozinha, recuperou um fogo antigo, teve coragem de chamar um moço para sair, tomou atitude, deu no primeiro encontro.

Engraçado, né? Quem reclama de livro erótico vê pornô adoidado, mas o problema são as nossas páginas. Mulher que escreve livro erótico coloca o sexo da visão dela. Sexo da visão das mulheres e como nós queremos que ele seja. É um meio de autoconhecimento, sim. É um meio de nos tirar de uma rotina que nem sempre nos agrada. É putaria também, ué, por que não? Enquanto o pornô visual é cheio de mulher que geme como quem grasna, o livro erótico deixa a sua cabeça trabalhar nos detalhes. A Voz do Homem. O jeito como ele toca. O como ele vai chamar a mocinha, quando está quase lá. Tudo importa. Cada palavra que a autora coloca importa. (E o autor também, mas não vamos nos ater aos homens que escrevem erótico, vamos deixá-los para um outro post).

Mulher é um bicho tão filho da mãe, que a gente nem sexo o tempo todo quer, nos livros. Se tem sexo demais, a gente pula. Se tem sexo de menos, a gente reclama. Tem uma justa-medida que ninguém sabe explicar qual é, mas reconhece quando lê.

Do ponto de vista de quem escreve, no ambiente do Wattpad ou não, no Amazon ou ganhando as prateleiras, o Livro é mais que um instrumento de libertação interior, é instrumento de libertação exterior, também. Também saímos de uma rotina que não nos agrada, que nem sempre é tudo o que a gente quer, para acreditarmos nas nossas próprias ideias. Enquanto gente que escreve, escrever é duplamente libertador. Até financeiramente, digo. Transforma. Transforma quem lê, transforma quem escreve. Mulher que lê mulher, que escreve para mulher, só tem a ganhar. É troca de confidência no clube da luluzinha. Eu sei pelo que você passa, mana. Você sabe pelo que eu passo, mana. E a gente vai se libertando das amarras enquanto sonha com um gato maravilhoso nos chamando de amor.

Quando um homem diz que livro erótico é coisdeputa, ele está te tirando aquele sonho, aquela sua determinação, aquela sua vontade de ir além. Se o seu marido “não gosta quando você escreve/lê”, ele está tirando sua autonomia. Livro erótico mexe com a gente. Não somos treinadas para brincar sozinhas no banho, a conhecer nosso próprio corpo. Somos instigadas a sentar que nem moça, a fechar as pernas, a não dar para qualquer um. A namorar sério. A ser mãe de família. Ninguém ensina que o prazer vem de dentro para fora. Que o prazer mexe com a nossa confiança, com nossa autoestima, com nosso corpo. Uma mulher consciente do corpo (não importa o tamanho, nem o formato dele) não se rebaixa para qualquer um. Não deixa ninguém passar por cima.

A arte salva. E se alguém disser que Livro Erótico não é arte, manda ele à merda. A Arte não serve os homens, a arte é livre, incatalogável. A arte move ânimos, mas nem todo mundo vai chorar diante da Capela Sistina. A arte salva todo mundo, mas nem todo mundo está preparado para a arte. Algumas artes não são para todos. Livro Erótico, meu bem, não é para qualquer um.

P.S.: Mas isso não quer dizer que qualquer livro erótico é instrumento de salvação. Há maus livros e bons livros em todo lugar. O Leitor e o observador que vão saber, quando encontrarem uma peça rara.

  • Namorei durante cinco anos com um cara que me podava, na vida, nos estudos, no trabalho e sexualmente também. Passei a entender o que eu merecia de verdade depois desse boom. Não falo sobre os livros de CEO’s fodões que tem mais dinheiro que o Lula. Tô falando sobre o carinho, sobre o respeito, sobre o comprometimento do homem para com a mulher nessas histórias, descobri que não merecia o pouco que eu tinha, tentei mostrar o que eu merecia, e sabe o que eu ouvi? “Esses livros não prestam, estão mudando você. Eu não te conheço mais”. Que bom né? Passei tantos anos sem me entender, acatando tudo, passando por cima do meu querer, tudo por medo de desagradar a sociedade.
    E os eróticos me abriram os olhos, me mostraram o quanto eu sou poderosa e não sabia. É disso que a maioria dos homens tem medo, eles precisam estar no controle, caso contrário, não servem pra nada.
    Admiro os que nos entendem e nos apoiam, tem que ser macho pra cacete pra apoiar a gente, porque os outros vão cair matando em cima desse “pobre coitado” que sabe o que uma mulher precisa de verdade.
    Você não escreve só sobre sexo, mas você mostra pra gente o que é ser homem e o que é ser mulher, você faz a gente entender o que uma mulher merece de verdade, se um dia eu encontrar num cara, quarenta por cento do que os seus mocinhos tem, puta que o pariu, eu vou ser a filha da puta mais sortuda da história! haha

    PS: Vou sair comentando tudo, então nem liga! kkkkkk

    bjss de luz <3

    • Nossa, Carol. Isso é tão profundo e tão lindo! Nossa, nega. Que pérola maravilhosa que eu vou guardar para a vida!

  • Helô

    Tô aprendendo muito com você, Camila. Como diz tia Graças Almeida: “a gente não pode ser tão alienado”. Em cada livro seu eu descubro mais um pouquinho sobre mim e essas coisas de mulher, que a gente não aprende na escola.

    • Quem dera a gente aprendesse na escola, por que daí não quebraria tanto a cara!

      Obrigada por ler, Helô!

  • Shirley Mascarenhas

    Oiiie! Só passando pra dizer que tbm to aqui lendo tudo haahahaah
    Obrigada por esse super presente pra todas nós! Bjo.