O não eu

Ninguém nasce igual. Esse é um fato irrefutável, uma verdade suprema.

Podem ser irmãos gêmeos univitelinos, usarem a mesma roupa, até a mãe errar o nome de tão parecidos, mas desde o momento que eles nascem, se você olhar as digitais, você vê que são pessoas diferentes.

Então, por mais que as pessoas cresçam, estudem, vivam juntas, elas vão ver e sentir o mundo de forma única.

Algumas pessoas vão viver momentos de introspecção profunda – daqueles de dar inveja aos monges budistas do Tibete – apenas olhando a porra do lago sujo do bosque da cidade.

Outros, verão a aurora boreal e não sentirão nada, nem mais e nem menos.

A gente (quem vive e quem assiste) não controla isso. Uma mesma mãe não cria dois filhos iguais. Um avô não abraça todos da mesma forma, nem, provavelmente, abraça a mesma pessoa sempre do mesmo jeito.

A humanidade não tem uma linha contínua de sucessão de acontecimentos prévios. Perder uma agulha não tem a mesma causa e efeito na vida de pessoas diferentes.

Isso é um caos, talvez uma das partes mais bonita dele.

Quando você olha para alguém, você nunca irá se ver, se enxergar nessa outra pessoa, desde os detalhes gritantes e expostos, até aqueles profundos e inatingíveis.

Quando você enxerga o outro, por mais que você queira, há segredos que nunca serão revelados, dores que você não vai poder sanar e sorrisos que nunca provocará.

Quando alguém te olha nos olhos, ele não se reflete; ele te contempla.

No momento que eu assumo que aquela pessoa que não sou eu simplesmente é outro, eu tenho a oportunidade de ir além do que apenas eu posso dar ao mundo. Quando eu paro para ouvir histórias que não são minhas é como estar num universo paralelo, é deixar de ser o protagonista do palco e ter a chance de admirar um espetáculo. Se eu olho num olho que não é meu, eu tenho a prazer de contemplar outro cosmos.

Na hora que eu consigo amar além da carne que me prende, eu experimento a liberdade e a tortura de ter o coração acelerado por algo que é totalmente fora.

E em algum momento dessa descoberta louca do que é viver em sociedade, a gente contempla a verdade de que mesmo que sejamos todos diferentes, mesmo assim, há toda essa bagunça de individualidade que nos faz tão semelhantes.