A Lição que o MPB Esqueceu (Ou, o Dia que os MCs ganharam de lavada)

Dos acessos à cultura, da disponibilidade de recursos, da boa-vontade do corpo docente, da boa-vontade dos salários, da precariedade, do despreparo, dos termos que bem-cabem a presídios (o pátio, a grade curricular, os raros banhos de Sol das aulas de educação física… ) ouvi uma vez um aluno supor que João Gilberto fosse música clássica. É tão alheio para alunos modernos que Schumann ou Chopin cabem no mesmo baú que João Gilberto, pouco diferem.

Qual aluno de dezesseis anos Ouve Morena Rosa? Quais MP3 e arquivos de áudio circulam no whatsapp? O interlocutor acaso conviva com alunos incessantemente de fones de ouvido (assim como eu, dez anos além) vê que batem beats quatro por quatro estrangeiros em loop, BPMs ativos, progressivos, violentos. Cantarolam as linguagens que os atingem, das horizontais e não verticais, como a instituição e a escola.

Para um garoto de dezesseis anos, nada mais aprisionador que a Escola. Palco vazio para um coração cheio ( e não discutamos do valor da escola, não gastemos energia com o óbvio…)

Caetano, no seu Disco mais recente, “Abraçaço” lançou uma ode à Bossa Nova. Para o público ao qual se destina, ele conversa de igual para igual, horizontalmente. A Bossa Nova Brasileira ganhou o mundo em sua época, João Gilberto contaminou o MPB ao ponto de engenheiros acústicos internacionais buscarem reviver fitas cassetes antigas em busca de não deixá-lo morrer por completo.

O problema disso não é a duração de uma fita cassete. Com esforço, o colono parece mocinho nos livros de história. Com esforço, o CD ganha caráter eterno no discurso, mas não palpita no coração de nenhuma das gerações que estão por vir.

Queira, acaso não tenha ouvido, acompanhar a música “Bossa Nova é Foda” para você entender do que é que estou falando:

Letra

 

Você entendeu tudo? Entendeu quem era o Bruxo de Juazeiro? Entendeu quem era o Bardo Romântico de Minessota? Ou, melhor, entendeu quem era o Porqueiro Eumeu? Pois é. Caetano não dialoga com o leitor comum (mas você pode entender do que a letra se trata clicando aqui). Caetano compara o pensamento clássico e o pensamento moderno, a Bossa Nova enquanto estilística moderna no seu tempo, Brasileira, juvenil, tipo-exportação. É a cara que o Brasil tinha defronte aos movimentos da época. Caetano, numa música de não mais de três minutos, comparou a Lira grega a Carlos Lyra, compositor de Bossa Nova, num contraste novo/velho muito muito sutil, muito refinado, muito alheio aos ouvidos do século 21.

Depois, num golpe inusitado, sai cantando um monte de lutador de MMA, como se fosse o MMA o correspondente contemporâneo de Caetano e os Bolsanovistas. MMA, muito famoso lá fora, tem o sangue brasileiro nas veias e no ringue. É o Jiu-jutsu nacional dos Gracie e as nossas personalidades que carregam o cinturão.

Engraçado ele citar dois produtos tão opostos, tão incondizentes, na mesma canção. Dois frutos nacionais e aclamados lá fora, mas incompatíveis. Será que Caetano se perguntou alguma vez se Minotauro e Minotouro sabem quem foi João Gilberto? Será que a dupla de lutadores sabem quem é Carlos Lyra? Digo isso não com o propósito da ofensa, sinceramente acredito que é vergonha da cultura e não da massa, o seu desconhecimento (e não vou nem dizer que são as elites com ouvidos apurados para as músicas clássicas os responsáveis pela educação das classes mais baixas, ou isso aqui perde o caráter de análise e ganha cunho de manifesto). Apenas vou me atender ao estilo de música que provavelmente estes aclamados lutadores de hoje em dia cresceram ouvido, que é o ponto principal de todo este post.

Há, ao mesmo tempo, elitização de um Caetano, a marginalização de um Emicida. Ao mesmo tempo que um aluno médio desconhece João Gilberto, ele julga como sua a Música de um Rael:

Letra

 

Música, inclusive, que somos treinados para decifrar. Percebe que os acordes iniciais, tanto de Rael, quanto do Caetano, são iguais de primeira instância? Têm, ambas, a mesma levada de violão. Sutilmente, com luva de pelica (me perdoe Caê, mas Rael é quem foi magistral, aqui) Rael desenha o que está estampado em cada aluno do fundão que traz no peito decorado o Vida Loka Pt1. e de quebra, o Pt. 2.

Para o universo em que a música se insere (e com quem ela dialoga),o clássico grego que Caetano propõe, no “Hip Hop é foda” vem traduzido num Jair Rodrigues, num Adoniran Barbosa. Brasileiro até os pêlos do sovaco. Brasileiro, contemporâneo, atual.

Você ouve este novo CD do Caê e ele não dialoga com você. “Bossa Nova é foda” Não é música para qualquer um. MPB é aquele voz-e-violão que você não compactua. A música popular brasileira que não se pinta de verde-e-amarelo. É música que pede um repertório prévio, um público letrado e mais que isto, culto, é a música do grupinho que não pega trem lotado seis horas da manhã.

É música, trocando em miúdos, para você acariciar o bichinho do ego que habita em cada intelectual marxista com empregada em casa. E “Hip Hop é foda” é a resposta à altura do filho da empregada. Conversa in medias res (e olha o meu bichinho intelectual gritando…) com cada aluno da estadual. É música de formação, Rael, Emicida e os dele, tal qual a Lira Grega foi para os bolsanovistas e elitistas do chamado movimento tropicalista.

Racionais, SNJ, Sabotage, habitam o peito de cada estudante marginalizado que leva pau em física, do mesmo jeito que a Odisseia habita o peito dos primeiros.

Tem algo nesta música “O Hip Hop é foda” que eu considero Genial: a ausência de referências literárias. Desinteligência? E o que é um Mano Brown recitando Nego Drama em “Uma negra e uma criança nos braços/solitária na floresta de concreto e aço/ veja, olhe outra vez o rosto na multidão/a multidão é um monstro sem rosto e coração” se não poesia daquela que se alia ao tema de João Cabral, o que é, então? (Embora o estilo deste seja muito mais parecido com o estilo dos Bossanovistas, do que dos MCs).

Tem algo que a Elite ignora quando cria. Os bons poetas (e os maus, livrai-me deus dos parnasianos) não criam para o grande público. Não selecionam o próprio repertório de forma inclusiva e tiram sarro daqueles que não entendem a sua poética. A Cultura Refinada Brasileira não tem nada de Brasil. Não tem nada sumariamente brasileiro ao ponto de ser decifrado e entendido por todos. É a tristeza do contraste que se vangloria na exclusão.

A grande sorte do Brasil é que os Excluídos se incluem e dão de dez a zero na Elite. A Linguagem altamente inclusiva sai à procura daqueles a quem a alta roda artística não dá conta e dá a ales o sentimento de pertença que é o mote principal da arte.

Vão chamar de ignorantes aqueles que não decifram a alta arte, mas, quem é mais ignorante? Aquele que, por falta de acesso desconhece, ou aquele douto que, conhecendo o contexto social do nescio, o exclui de suas linguagens? Quem é o real ignorante, aqui? O que exclui pela sobra de exemplo, ou o excluído a quem, por falta de oportunidade, fica à marge do grande contexto?

Hoje eu fui excluída da classe à qual sempre supus fazer parte. Tive que quebrar a cabeça para entender a grande Ode que era a Música do Caê (por quem fui apaixonada, inclusive). Pode me chamar de ignorante, tudo bem, já não é de hoje que decido qual é o papel da minha cultura e da minha inteligência:

Se a arte não inclui, se ela não comove, não purga, não alimenta ânimos, ela não me serve como arte. Por mais refinada que seja, se ela não atinge a todos, desconsidero seu caráter enquanto obra. Vitor Hugo foi o primeiro romancista francês a olhar para os pobres. Machado é o gênio que a elite embranquece. Hoje, Rael sorri circulando no whatsapp da galera do fundão (de morna rebeldia, já dizia Criolo) e amanhã…

Amanhã será ele também eternizado no coração e na língua das gerações que virão, tal como Racionais circula hoje. Que o auge da afetação de um Caetano sirva de lição para cada pobre diabo (cada pobre diaba, pois também estou metida nisso até os cotovelos) que sonha com o grande. O mesmo cara que canta “o meu pai dormia em cama/minha mãe, no pisador” não é mais o mesmo que comenta do porqueiro Eumeu que vê Odisseu retornar para Ítaca sem reconhecê-lo.

Uma pena que nem todo filho com mãe que dorme em pisador entenda claramente a mensagem de Caê.

Uma sorte que exista MCs.