(Conto) – É que eu tenho Alzheimer

Em duzentos milhões de anos, todas as coisas que choramos agora não existirão. Não saberão, quem quer que resista aos duzentos milhões de anos, como é que foi a raça humana. Não saberão como parecíamos, nem como pensamos. Não saberão por exemplo, que erguemos monumentos em nome do amor, nem que convocamos guerra em nome de uma divindade que nos ensina a amar uns aos outros.

Todos os arquivos, todos os livros, todo o nosso sistema de escrita. Tudo vai virar pó. Ninguém lerá os Clowns de Shakespeare, nem a Magali do Maurício de Souza. Nada vai sobrar. Não vai sobrar nem a Rosetta Stone, nem Matchu Pitchu, assim como hoje não sabemos como foram os Jardins da Babilônia. Tudo vai ser esquecido e escamoteado por grossas camadas de pó e fuligem – pó esse, feito dos restos de nós.

Hoje, o tanto que eu choro, vai ser só mais um choro escondido em meio a tantos choros mais barulhentos. Mais necessários. Em duzentos milhões de anos, ninguém vai ouvir a voz de ninguém, num silêncio tão profundo, que este será o novo significado de caos. Um abismo que você cai para sempre e nunca sabe como é que sai.

Em dez mil anos eles reescreverão toda teoria válida hoje. As grandes personalidades não serão lembradas e, para cada Gênio precoce que atinge um QI de 180, haverão dois moleques em idade escolar que não aprenderão sobre eles. Em dez mil anos, tudo o que é conhecido agora se reverterá a mito, ou teoria mal embasada. Em dez mil anos, nem minha cova, nem meus netos, nem meus tataranetos existirão mais. Em dez mil anos pode ser que os humanos tenham quatro olhos e um cérebro de dez quilos.

Em cem anos eu serei uma fotografia. Ninguém se lembrará do sinal que eu tenho na panturrilha. Ninguém se lembrará dos meus amores, das minhas aflições e do único sonho que não realizei. Ninguém se lembrará que com dezoito anos eu embarquei para a Europa num navio cargueiro. Se eu der sorte, meus netos se lembrarão do doce de abóbora que faço. Se eu der sorte, meus filhos ainda estarão vivos e eles saberão como é que se parecem os seus netos.

Se eu der sorte… Ainda me lembrarei como seguro a colher hoje de noite, ainda me lembrarei que tenho meus remédios amanhã de manhã, ainda conseguirei tomar banho sozinho. Se eu der sorte, eu saberei quais são os rostos dos meus filhos, a graça de suas namoradas, o gosto das lágrimas felizes que ela tinha no rosto, no dia que nos casamos.

Em duzentos milhões de anos, por mais que ninguém se lembre, coisas aconteceram. Passamos por este mundo. Em duzentos milhões de anos, ninguém saberá o que houve com a terra, mas enquanto o último humano estiver vivo, ele será o totem de todos os humanos, de todos os sentimentos humanos, de todos os sabores humanos. Ele será a coisa-coisa. Objeto de representação e ser. O último humano será o objeto perfeito que Platão sonhou.

Por mais que eu não me lembre, por mais que eu confunda teu rosto, por mais que eu confunda o meu rosto, eu existirei enquanto você existir. Conferimos existências enquanto nos cumprimentamos. Provo que estou vivo quando encontro um ser igual a mim. Vai chegar o dia em que eu não serei mais capaz de perceber a sua existência. Vai chegar o dia que teu rosto se confundirá com o meu e talvez eu te chame de um nome que não o seu.

Vai chegar o dia em que só você vai poder garantir que eu existo e você vai ter que me dizer isso. Esquecerei que existo. Esquecerei que sou vivo. Vou precisar que alguém me diga. Vou precisar que você confira a tarefa da sua existência a outro, eu não serei mais capaz de checar isso.

Espero que você continue verificando que eu existo. Aquele último humano-totem não vai poder verificar a existência dele com ninguém. Não vai beijar, ou abraçar, ou dar bom dia. Aquele último humano vai carregar a receita de como se faz humanos, mas não vai poder fazer mais nenhum. Vai se esquecer que ele é humano, pois não haverá nenhum como ele.

Todos os que já se foram olharão por ele, mas ele nunca vai saber que tem algo ou alguém olhando por ele. Só será vigiado e secretamente assistido por todos os que vieram antes. Um humano vagando na terra vazia sem saber o que vai ser dele, desejando achar um comum, um igual. Alguém que o entenda e o tire da solidão. Daqui alguns momentos, eu serei este último humano.

Espero que secretamente você me assista.