A Dança Mais Antiga do Universo

Um, dois, três, quatro. Quatro passos, eu pude contar. Quatro passos e ele se vai, dobra a esquina. O cara mais gato que eu já vi. Cheira bem, puta merda. Amor de pica, nem vi a pica ainda, mas quero. Vou atrás ou não vou? Deixa de ser doente, segue seu rumo.

No um, ele está parado diante de mim. Congela o mundo, rapidinho. Ele está frio e ele está de jaqueta. Cabelo despenteado, quase nem me vê. Ombros largos, as mãos no bolso. Nem me viu, mas eu, ah, eu te vi. Como te vi. Impressão colada nos olhos, imagem que não sai. Cara mais gato que eu já vi. Um gosto colado nos lábios, preciso ficar lambendo, um gosto que não sai, um cheiro. Impressão é esse troço que te faz lembrar do cheiro, do gosto, quase sente na pele. Só um passo e eu te tenho todo.

Eu sei, pulei o três (1)

No dois estou caçando no terminal. Finjo que ele entrou no mesmo terminal que eu, vindo de outro caminho. Ele tinha uma boca bem desenhada, rapaz, que que era aquilo. O arco do cupido dele era um V certinho. Macho para fêmea nenhuma botar defeito. Devia ter seguido ele. Devia ter chegado nele. Ele usava aliança? Não lembro, tanta coisa para ver, dedo foi o que não vi. Lembro do porte dele, sou xonada em porte. Homem que tem porte imponente me ganha fácil.

No três, tô em casa. No três, tô no banho. No três tô sem jeans, sem salto. Impressão colada nos olhos. A casa escura, silenciosa. Casa cheirosa, limpa, ninguém para reclamar, xingar, gritar. Para o bem e para o mal, vazia. No três estou no banho, água esquentando o corpo frio, molhando cabelo. Sabão escorrendo, água amaciando a carne endurecida do dia frio.

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No quatro, deitada. Jantei qualquer coisa, respondi e-mail, coloquei o celular para despertar e deitei. Quatro passos, ele usou. Quatro passos para se afastar de mim. Quatro passos e Deus não congelou o mundo. No quatro, deitada. Qual será o nome dele? Quantos anos? Se eu passar pelo mesmo lugar amanhã, no mesmo horário, será que ele também passa?

Um, dois, três, quatro. A dança que eu conheço, a roupa fácil de tirar, molha o dedo no um, se enfia para dentro do edredom no dois, a impressão dele colada no três e o quatro. Circulozinhos com carinho, Clarissa, você nem está com fome. Qual será o nome dele? Me abro, só um pouquinho. Reconheço o terreno pensando no rosto dele. Como será a voz dele? Como será que ele geme? Qual será o tamanho do pau? O que tem dentro daquela jaqueta preta? Morenice que me deixa de quatro, já sei. Mão boa, a que ele tem. Forte, precisa.

Você lambendo a minha teta, você raspando os dentes na minha costela… Entro em mim pensando em você, um pouquinho só, dois dedos. Você mordendo a minha barriga, escorregando a boca devagar, fazendo charme, negando o que eu quero, me sorrindo com essa boca gostosa sua, safado devagarinho. Seus quatro passos na rua me deixam doente, amor. Se eu fosse sua mulher, viveria colada no seu pescoço, invertida, do avesso. Marcando o gado todo o dia para você saber que tem dona. Para você tomar ciência do que faz comigo.

Um, dois, três, quatro. Sua língua lá embaixo, me segurando como se eu fosse fugir. Você preso e eu danço. Um dois, agora mais rápido, mais fundo, mais minha, dois dedos lá dentro e dois dedos cá fora. Dói o dedo e eu não paro, nem você para, me chupando como quem me come, me beija com a boca melada de mim, quatro dedos funcionando.

Eu sei, pulei o três

Uma batida que não cessa, um tormento que não tem fim. Quatro passos e você é meu. Na minha cabeça, você é todo meu. Na minha cabeça você chupa como ninguém e me fala… caralho, na minha cabeça, você geme como ninguém. É de um tato fino e cru. Não quero saber do seu dia, não quero saber como vai ser amanhã. Você, na minha cabeça, é os quatro passos, essa música que acelera, o dia que termina, teu cheiro de homem, delícia de homem, encanto que me deixa aqui, segurando a minha perna enquanto sou inteira graça. Inteira movimento e respirar desregulado.

Não sei, cara gato, o que te fez sair da cama. Hoje, é comigo que você deita.

Amanhã te procuro. E depois de amanhã. E depois.

Na minha cabeça, a parte de trás da minha coxa roça nos pelos da sua perna e na minha cabeça, amor, você é quente. Quente que me derrete. Os bicos dos meus seios roçam no seu peito e suas mãos me envolvem. Na minha cabeça, você é mais que um cara gostoso. Mais que ácido que entra em mim e frita o anverso das minhas veias. Na minha cabeça você é um deus. Te boto no pedestal e te chupo devagar. Venerando.

Na minha cabeça, cara gato, te venero. Te adoro. Deus do meu mundo por trinta segundos, trinta segundos em que não sou só mais eu, sou mais que quatro passos, quatro segundos em que teu cheiro encostou no meu, tua presença encostou na minha.

Na minha cabeça, nessa cama cujo um dos lados é sempre frio, na minha cama vazia, você é mais que um desconhecido. Você é parte de mim. A mão que me come. Os dedos que se inserem, que me apertam e que deslizam.

Parte de mim, cara gato. É isso. Trinta segundos em que você e eu somos os quatro passos e nenhum deles.

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