A vida é muito curta para ler livros ruins! (Os meus, inclusive)

Esses dias eu li isso na timeline de alguém. É até uma frase batida no mundo dos leitores de facebook. A vida é muito curta para você se forçar a ler um livro só porque começou. Tem quem tenha dessas piras, eu costumava ter, também. Me obrigar a ler um negócio ruim, que ofende o que eu penso, ofende a minha inteligência enquanto leitora, só porque comecei. O último livro que eu fiz isso foi o “Cem escovadas antes de ir para a cama”. Encabeça a lista de livros-bosta da vidinha da Camila.

E aí eu comecei a escrever. E aí, para escrever, você tem que ficar constantemente falando para as pessoas “me leiam, por favor, me leiam!”. E aí você spamma tudo quanto é grupo porque você acredita cegamente que aquele seu trabalho é o melhor que você pode fazer no momento. Você junta um cadim do melhor que tem e taca nuns cadernos meio ensebados nos cantinhos. Escrever não deixa de ser uma síntese do que você viu, você ouviu, uma ou duas viagens que dá enquanto toma banho e lava a louça. (Pelo menos, é assim que eu funciono. E vira e mexe, dá DR nessa casa porque o ome jura de pé junto que me disse disso e daquilo, mas eu sequer o vi na minha frente, quem dirá ouvi-lo).

Olha eu viajando e fugindo do tema, de novo.

Depois que terminei o Dio, comecei uma viagem mutcholôca para me desintoxicar do universo romântico de famílias tolerantes que se reinventam que os Ferreira são. Meti Quia, uma mistura de Neuromancer, FightClub, Emicida, roubos a banco e Sia, naquele clipe da gaiolinha. Quia foi logo na sequência, larguei o Dio no ponto do ônibus (e o coitado está lá me esperando até hoje, ô homem que não larga o osso) e entrei no carro da Bel. Foi mais um troço que escrevi para mim, que para o leitor. Mais um troço que eu quis escrever, do que um troço para “fidelizar o leitor” comigo.

Escrevi, uai, pois sim. Só isso.

Só que eu tenho que baixar o topetinho e dizer que Quia não impacta de primeira. Quia é chatinho pra porra, no começo. Eu, que escrevi aquela birosca, tenho que dar o braço a torcer e entender que o leitor acostumado com romances, quando chega no Quia, se espanta. Tem gente que começa a trama morrendo congelada num frigorífico. Tem gente que vai morrendo um pouquinho por dia, no caminho. É para ser assim, eu quis assim, mas eu entendo que Quia pode não agradar nem aos gregos, nem aos troianos. E tem que estar tudo bem.

Com isso em mente, que Quia pode até estar do jeitinho que eu queria (salvo uns erros grotescos de tão bobos que eu preciso parar e revisar de porta aberta) tem gente que não vai gostar dele. Os números dele estão aí e não me deixam mentir. Para o Quia eu nem fiz propaganda. Só saí escrevendo num atacar de teclados insano. Quia é “diferente”, tem um fluxo de ir-e-voltar, um conto-não-conto, umas pistinhas escondidas, tão bobas, nos rodapés.

E o Leitor que leu o Dio pode não gostar do Quia e tem que ter a liberdade de me dizer que ele é um lixo. Uai, não é porque eu escrevi, que o leitor que me leu no Dio, é obrigado a me ler no Quia. Não é porque até que tem umas partes boas, que o leitor tem que morrer de amor. Quia demora para empolgar. Se empolga, empolga no segundo Quia. No primeiro, eu própria, quando reli, não me empolguei.

 

Às vezes a gente tem que entender que o nosso melhor naquele momento não é o nosso melhor no todo. Que o nosso melhor pode até ser legalzinho, mas não vai ser assim, um negócio foda pra caralho.

 

Eu acho engraçado esse negócio de que todo mundo fica com medo de dizer que seu troço tá ruim. Parece que vai ofender. E fica de buxixo pelos cantinhos “nossa, aquele troço da Camila é horrendo”. Parece que eu sou, ou, que somos um vasinho de cristal que vai se romper com qualquer peteleco. Quem escreve (e mostra) tem que estar preparado para ouvir um “olha, seu troço tá um lixo” de vez em quando. Faz bem para manter os pés no chão e os olhos no horizonte. Faz bem quando você vê resenhas que só falam bem, gente que ama o que saiu de dentro de você. Não deixa a gente confundir a gente mesmo, com nosso trabalho. Aquele trabalho está bom, ótimo, mas não quer dizer que, por causa dele, eu sou boa. Eu continuo uma mais ou menos, com alguns pontos altos. E é assim que tem que ser.

A vida é curta para ler livros ruins, para agradar todo mundo e para mentir para os outros. A vida é curta para você não dizer tudo o que pensa com medo de ofender.

O Livro só é bom quando te deixa ruim consigo (1)

 

Se você acha que está ruim, não leia. Se você ama, leia e demonstre amor. Se você não sabe nem do que eu tô falando, (do que é Quia) bom, aí complica.

  • Nay

    só li os Ferreira, e puis Quia na biblioteca, mas vivo procrastinando pra ler, leio outros livros e tal, e Quia ta lá tadinho (nada pessoal) eu quero ler e gostar *-* tbm parei com essa de que se começou ler um livro tem que terminar, tem uns livros no wattpad que só por Deus, não dá! Mas eu quero começar logo ler Quia, gosto de livros diferentes <3

    • Camila Braga Marciano

      Quando for ler, espero que dê uns 3 caps para se encaixar na história pq o começo é chato demaaaaais!

  • Inaê Lara Ribeiro

    Vou ser bem diretinha: Livros diferentes, pessoas diferentes!
    Você é uma autora mista. Foi de romance simples à ação incrementada. Você, inclusive, muda seu modo de escrever completamente entre um e outro. Geralmente autores fazem o oposto, eles ficam na mesma linha e na mesma linguagem. Você, não! Isso, pra mim, foi incrível. Já fico imaginando a próxima saga. Números não significam que está melhor ou pior, apenas popular ou não. E aí Megera… Já é outra discussão.

    • Camila Braga Marciano

      Olha, vou confessar que fiquei impressionada com o comentário de eu mudar a linguagem. Parafraseando H.Hilst, “fico besta quando me entendem”.

      De resto, obrigada por ler, Inaê!

  • Carol Nogueira

    Sou vidrada em Qvia… Acho engraçado o fato de ser uma leitora assídua de romances e na hora de ler, enrolar pra ler o Dio e começar imediatamente o livro das rinhas de galo! rs
    Com Qvia foi muito simples, acho que eu precisava me desintoxicar tanto quanto você e a coisa fluiu tão bem que foi esquisito pra caralho voltar a ver amorzinho no Lipe rs
    A Inaê falou aqui embaixo de uma coisa que eu acho maravilhosa em você: você muda o jeito de escrever, muda tanto, que as vezes eu esqueço que é você, a autora. Hoje eu desisti de esperar juntar capítulo e resolvi voltar pro mundo da Dix e da Bel… Tive que ler o primeiro capítulo duas vezes pra pegar no tranco, mas depois, eu tava do lado de todos eles nas tretas todas da vida.
    Com o primeiro Qvia eu esquentei depois do terceiro capítulo, aquela regra do “se obrigue a ler até o sétimo” não serviu pra mim. Me empolguei muito com todos eles, reli, inclusive. Então, megera, acredite quando a gente diz que seus troços são bons. Eu vou ser a primeira a te chamar no face ou no whats pra “trocar umas ideias” se não estiver tão bom assim.
    Já me obriguei a ler muito livro ruim nos últimos anos, e como consequência, eu passava meses sem conseguir ler nada. Parei com essa neura, tem uma leitora chamada Rosangela, que é tão cabrita da Jan quanto eu e você que me ensinou que não é feio desistir do que não nos agrada, feio mesmo é insistir em algo pra agradar os outros (;
    bjss de luz, megera linda! Me ature no wattpad agora! muahahahaha

    • Camila Braga Marciano

      Também foi esquisito começar a escrever o Lipe, Carol. Depois do Quia… rapaz, para engatar amorzinho de novo foi tenso.

      Quia é uma coisa que eu queria escrever faz tempo, fico feliz que você goste e que não tenha aguentado antes de cair “de boca” no quia 3! <3

      P.S. Essa cabrita me adicionou, mas nunca falou comigo.