Para quem você escreve?

Me vali do livro “O que é Literatura?” do Sartre, para escrever isso. Espero que ele não se revire muito no túmulo.

Eu venho querendo fazer isso tem um tempo. Ultrapassar a barreira do livro e atingir o peito. Tiro à queima roupa, daquele jeito mesmo que os naturalistas faziam. De colocar o dedo e sair futucando. Cientifista pero no mucho porque eu sou bem qualquer nota para essas coisas.

Feliz ou infelizmente, humano é a única espécie capaz de criar arte. As abelhas se comunicam, dançam até, mas para indicar comida. A gente se fantasia nessa coisa e se perpetua. Mantém ou desconstrói conceitos só com nossas particularidades. A linguagem, Benveniste já dizia, é intrinsecamente humana, mas as artes… Ah, rapaz. O mundo vai girar, a planta vai crescer, o Sol não vai sair de lá, mas somos apenas nós, humanos, que transformamos o rio, a lua, a grama alta em paisagem. A gente para e fica melancólico só de ver o Sol se pôr. Só a gente bate palma no Arpoador.

Não esquece que o que você diz é importante (1)

Se sabemos que somos os detectores de paisagem, que só nós somos capazes de percebê-la, somos capazes de produzí-la. Se não houver quem a aprecie, não haverá paisagem. É claro, ninguém é doido de dizer que a planta vai morrer, que o Rio vá secar porque a humanidade não está lá para observar, embora exista uma teoria da física que diga que vá, sim. Acontece que não é isso, é além disso. A planta não é paisagem. O que torna a planta uma paisagem é quem olha.

Um dos principais motivos da criação artística é, com certeza, a necessidade de nos sentirmos essenciais em relação ao mundo.

Se um objeto for construído seguindo um critério, se ele for produzido para ser comercializado, se tiver regras e padrões de qualidade, então é possível julgá-lo bom ou ruim sem depender do gosto. Uma peça rigorosamente produzida é uma peça excelente e não tenha quem discorde disso, mas, numa obra de arte, onde o autor inventa a regra, onde ele submete seu trabalho a esta regra criada por ele, este padrão criado por ele, se nosso impulso criador “vier do mais fundo do coração”, então nunca encontraremos nessa obra nada além de nós mesmos. Nós criamos a regra e nos julgamos por ela.

Isto também está impresso na Alegoria do Platão (que eu estou, a duras penas, pastando para traduzir. E bate um orgulhinho traduzir isso do original, então, me perdoe essa exibição besta). Lá diz o seguinte: Se um sujeito tem bois e bezerros, ele contrata o melhor domador de cavalos e o melhor fazendeiro para fazer do boi e do cavalo o melhor boi e cavalo do mundo. Se um sujeito tem filhos, a quem ele contrata para ensinar a virtude, a bondade e fazer destes dois filhos, os melhores homens, politicamente e humanamente falando? Entende onde eu quero chegar? Não é consenso entre pais o que é a virtude humana, então cada pai vai ensinar o que achar certo, do mesmo modo que todo autor vai escrever e criar suas próprias regras de acordo com aquilo que ele julga bom o bastante, arrancando tudo o que ele tem e julga de bom de lá do fundo do coração.

(A única coisa é que, em tese, você consegue controlar uma obra, mas jamais, um filho. Na prática escritor não controla nada, nem a hora de parar de escrever, mas, né, não comparemos a árdua tarefa de criar filhos com escrever, pois filho deve ser bem mais difícil!)
Eu sei, pulei o três (1)

Não é verdade, Sartre disse primeiro e eu assino muito, que o escritor escreva para si mesmo. Se o escritor escrevesse para si, por que publica? Por que tira da gavetinha, bota a cara no Sol? O ato criador é apenas um momento da produção. O impulso, a inspiração ou disciplina ou dom que julga ter, chame como quiser, é só um ponto da criação. A Obra é um pião que só existe enquanto gira. Bonitinho na estante ele não é nada. Não comove, não desperta, não sacode. É um objeto. A obra só existe enquanto tem alguém lendo, alguma alma sem ter mais o que fazer que se despende na incrível tarefa de prever.

Pois ler implica prever, esperar. É uma brincadeira de gato-e-rato, um tirar e tomar, o leitor persegue frases e prevê futuros. Sem espera, sem ignorância, não existe esse pião que gira. O escritor que lê o próprio trabalho sabe o que esperar, não se comove, não se afunda porque ele próprios sabe até onde esse poço vai.

É só na leitura que a planta vira paisagem. Em sumo, essa frase não é minha, mas é boa demais para eu não citar: “A leitura é criação dirigida”.

O leitor tem consciência de desvendar e, ao mesmo tempo, de criar. De desvendar criando, de viver pelo desvendamento. Quantas vezes eu já não fui surpreendida com um comentário perspicaz, inteligente, que muda todo o meu modo de perceber meu próprio livro? Não tem uma obra para todos os leitores, mas uma obra para cada leitor, impresso a esmo ou não, cada leitor lê uma coisa diferente. E essa é a mágica.

É esse ir além da coisa escrita, o sujeito histórico do leitor que garante a grandiosidade da obra. E digo histórico porque é isso o que muda a ótica dele. É isso o que faz ele ser ele e ninguém mais. Por isso, saber o feedback nos é tão importante. É o leitor que dimensiona, que corta, que intensifica ou simplifica. Ele é o nosso editor último.

Uma vez que a criação só pode ser completa na leitura, já que é feita só depois que o leitor termina sua leitura, toda obra é, também, um apelo: A quê? Na liberdade do leitor que ver como quiser ver, quando quiser ver e até onde queira ir.

Eu sei, pulei o três (3)

Se ocorro a meu leitor para que ele termine a obra, é evidente que o considero um ser livre para fazer o que bem entender com isso. Ele é pura liberdade criativa como eu fui quando exerci a minha, incondicionalmente. Por isso, em caso algum eu poderia contar com sua passividade, pois isto seria tentar afetá-lo, comunicando-lhe emoções de imediato, pois são nas paixões que eu me alieno e alieno outros. Liberdade não é alienação e por mais que eu tenha chorado mais que um bezerro indo ao matadouro quanto matei X e Y, (leitores meus, vocês coloquem quem queiram na máscara de X e Y!), me deixar levar por este choro é produzir um fim e uma leitura absoluta.

É o engajamento com o universo criado, com o autor, com as palavras ditas que convencem. Como leitora eu posso despertar desta realidade boa ou feia a hora que eu quiser, mas é aí que mora a armadilha de um bom autor: o leitor não quer acordar.

Assim, como eu criei livremente e você, leitor, aceitou que eu criasse livremente, eu tenho que aceitar você criando livremente com o universo que te propus. É um puta exercício de generosidade. Aceitar que X e Y possam morrer e eu aceitar que você vai me odiar até o fim dos seus dias por causa disso (Risadinha maléfica: )

O que o autor pede ao leitor não é só o exercício da sua liberdade abstrata e esvaziada de sentido, mas a doação da sua pessoa, das suas paixões, do seu temperamento sexual, das suas crenças. Só a sua pessoa vai concluir a obra da minha pessoa. Só a sua pessoa, com o seu olhar, termina a minha paisagem. E essa é a melhor parte.

Eis porque um sujeito mal amado, amargo, corrompido, verte lágrimas quando se vê diante de uma obra encantadora. Ele aceitou o contrato proposto. E quanto mais experimenta esta maravilha, mais exigente ele fica. Mais ele exige do escritor e mais o escritor exige dele.

Eu sei, pulei o três (4)

Assim, cada livro lido, cada quadro visto, cada música é a recuperação de uma coisa primeira, humana, do ser. Cada um deles representa a liberdade do espectador. Por causa desta liberdade é que o Universo criado não pode ser uma massa esmagadora por cima do leitor, ditatorial, imposta. É assim porque é assim não cola com sujeitos livres. É preciso que a obra, por mais perversa e desesperada que a humanidade nela retratada seja, que tenha um ar generoso. (Palavras do Sartre, eu não falo lindo assim nem apaixonada).

É bem verdade que não se faz bons livros com bons sentimentos, mas não é para que façamos (você e eu, leitor que constrói comigo) livros inertes e frios nas mazelas. É para que animemos estas injustiças com nossa indignação, com nossa revolta, porque se você não entender a injustiça como uma injustiça, não perceber a balança desigual, não tem liberdade para todo mundo. E esse é o apelo. A obra é um ato de confiança na liberdade dos homens. De todos. Se um negro escreve com fúria sobre as próprias mazelas, que o branco entenda a sua posição no mundo e que se revolte com ela, que mude. É por isso também que nem toda obra é para todo leitor porque haverão homens miúdos que não perceberão este apelo e entenderão reforço de cultura, coisa que a arte nunca propôs.

-E paremos de chamar de arte manifestos absurdos que perpetuam culturas ultrapassadas de opressão. A arte é maior que isto e a gente tem que entender liberdade e arte quando lê!-

No momento em que percebo que a minha liberdade está indissoluvelmente ligada à liberdade de todos os outros homens, eu não posso aprovar a servidão de alguns deles. Quer falemos das paixões individuais ou nos regimes sociais, o escritor, homem livre que se dirige a homens livres, tem um único tema e um único mote.

Digo isso porque é muito fácil você abrir um livro, entender o que está escrito, fechá-lo e ir dormir. É muito fácil eu pegar um papel, encher de rabisco e sair por aí implorando leitura. É fácil. O exercício de liberdade é que é difícil. Inclusive o exercício de perceber que nem sempre as pessoas acertam e que não é perda de tempo ler um erro. O erro não é perda de tempo. A espera não é perda de tempo, a previsão não é perda de tempo. Tudo isso conta, quando você garante que o outro seja livre do jeito que você quer ser. Conta, e mais: só é perda de tempo quando você não enxerga nada disso e impõe que escrevam para você que fulano tem que ficar com cicrano porque você não leu trezentas páginas à toa.

E não, isso não foi um spoiler.