Cinco Minutos sem Perder a Amizade

Cinco minutos sem perder amizade é coisa de moleque. Quando você só quer socar seu amigo e ser socado de volta, sem perder o laço afetivo. É só porrada. Com motivo ou sem motivo, você só quer descontar algo daquele momento, mas não quer cortar relação.

Cinco minutos sem perder amizade é coisa de moleque, mas é também uma coisa muito madura. Você diz o que está sentindo, coloca para fora, desabafa, reclama e depois pronto, problema resolvido. Com porrada ou sem porrada. (No caso dos adultos é bom que seja sem porrada, né).

Estamos todos entrando nesta pira de que “se você gosta de X ou Z, me exclui”. Só querer conosco pessoas que pensam como nós. Sem nenhuma conversa que haja debate de ideia, conversa com opiniões contrárias. É esquisito, isso. Você quer amigos ou pessoas que concordem com você? Eu fico pensando nisso, sabe? Como e com quem estaremos daqui dez anos, se a gente exclui qualquer sujeitinho que não concorda com as nossas ideias? Vai ver o cara ou a mina é sensacional, muito engraçada, muito gente-fina, mas só porque apóia ou aborto, ou, porque apóia Bolsonaro, não temos e não vamos mais falar com elas?

Me irrita isso. Porque pode ser que a pessoa que apoie Bolsonaro e a pessoa que apoie o aborto, ou que seja contra os gays, tenha a opinião que tiver, esteja só passando por um momento da vida onde ela precisa se agarrar numa coisa. E essa coisa concreta pode ser a opinião da massa. Se você para e pergunta do porquê esta pessoa apoia X ou Z, pode ser que ela responda, ou, pior, pode ser que ela nem saiba.

Opiniões escondem caráter sim. Ser a favor do holocausto e a favor da escravidão é sim um medidor de caráter, mas não só, de criação, também. Você não pode chegar numa pessoa que cresceu a vida inteira doutrinada para X e dizer que ela não presta. Que ela não serve para ser sua amiga.

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Há uns 10 anos eu era a pessoa que chamava outras mulheres de puta se elas trocassem de namorado muito rápido. Dez anos, cara. O que são Dez anos?

Algumas vezes a gente tem que perceber que só falta um pouco de crescimento no outro. Falta um pouco de vivência e conversas fora da bolha. Bolha é o seu círculo social, as pessoas que você conhece que têm o mesmo gosto que você, frequentam os mesmos lugares, falam das mesmas coisas e se afetam de modo parecido. Bolha é uma camada bem fina que você não vê, mas que te separa das outras milhares de bolhas que outras pessoas também não veem, mas que conduzem o seu pensamento.

Uma bolha guia o seu pensamento. Esta é a parte nociva da coisa. Viver cercado de gente que gostamos é lindo, mas viver cercado de gente que pensa como nós é esquecer que nós também precisamos trocar de opinião e nós também precisamos evoluir. Ou você já conhece e já viveu tudo o que queria viver? Já ouviu todas as experiências de vida que queria ouvir, já desmistificou e se questionou de cada opinião que tem? Não, né? Pois é, nem eu.

Olhar para o outro não como se ele fosse inimigo, mas como se ele fosse um sujeito no meio do próprio processo de evolução tira a raiva de uma discussão que não precisa de raiva. Boa parte das coisas que discutimos não podemos mudar para que estas coisas atendam nossos princípios. A gente só muda uma pessoa por vez e o senso comum é geral. Conversando, com uma pessoa por vez, a gente se contamina com ela e vai contaminando. Não tem porquê querer mudar o outro, seja o que o outro seja, na base do berro. Ninguém muda no berro. De palmada de pai a mãe a gente teme, mas a gente não muda. A gente entende que é errado, que se fizermos tal coisa apanharemos e nós paramos de fazê-lo porque tem consequência, não porque aprendemos que é errado.

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Diz tudo! Veja lá, um pastor, uma vereadora, um pai de família, tudo roubando coisa de loja porque a polícia não está na rua. O punidor não está, então você faz aquilo que você não sabe que é errado. Aprender não tem a ver com castigo, nem com berro, nem com tapa. É bem antes disso, é lá onde as pessoas respondem direito e não na base do “porque é assim”. É lá onde não o professor ou a autoridade responsável, mas todo mundo, o tempo todo, corrige um ato errado sem provocar trauma. Conversas. Sempre na base da conversa e nunca só uma.

Se a gente não é tolerante nem com nossos filhos, porque seremos com nossos amigos? Ou com quem não conhecemos? Não tô dizendo para aceitar um assassino como um coitado, veja bem. Esta pessoa precisa de um amparo muito maior que uma conversa. Estou falando dos pequenos delitos: o desejar a morte de um gay, de uma “abortista” o de dizer, sobre mulheres que não conhecemos, que elas são putas.

A criação dita todo o resto. E se você foi criado na base da porrada, vai achar que é na base da porrada que surge o respeito, a admiração, o certo e o errado. E aprender o certo e o errado na base da porrada, não sei você, Leitor, mas para mim, isto está muito errado.

Então, da próxima vez que você ver um apoiador de Bolsonaro, ou de Lula, ou de quem quer que seja, procura a base do porquê. Estabeleça uma base de conversa. Você vai ver que defender seu candidato como se ele fosse 100% certo também não dá samba. A esquerda e a direita, hoje, estão muito cagadas. As feministas esqueceram recorte de classe, de gênero, de etnia, de minoria política. Os homens nunca nem foram ensinados sobre estas coisas. As mulheres estão procurando a própria educação e, quando você se interessa numa coisa, parece que todo o resto está baseado nisso.

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Entre numa conversa com um pouco de paciência. E você vai ver que no fundo, tá todo mundo perdido, igual a gente. Sem nem tirar, nem por. Estamos todos em crise. Não endosse a ala dos cuzões, porque ela já tá cheia.

Vamos para o outro caminho, já vimos que esta não presta 😉

  • Rayssa Rodrigues

    Tem hora que eu tomo uns tapão na cara, é umas coisas que se pensarmos faz todo sentido. Se tem uma coisa que seus textos me ajudma a melhorar é nisso, em reconhecer meu erro.

    • Camila Braga Marciano

      Eu uso esses textões para me bater, também. Fico feliz que eles sirvam de alguma coisa!