Você pode ter, mas não pode ler

Quando você primeiro começa a escrever para o mundo, quer duas coisas: Que te leiam e que gostem do que você escreveu.

Quando a gente primeiro abre a gaveta e bota os papéis no mundo, a gente pensa no mundo, mas nunca pensa que algumas pessoas ao nosso redor também lerão.

Há dois anos eu comecei uma brincadeira no Wattpad e nunca supus que a minha mãe, ou a minha tia, ou a minha sogra, fossem ler. Eu coloquei coisas ali que eu sabia que eu gostaria que o público lesse, coisas que eu gostei de escrever, mas que, quando se trata da família da gente, a gente coloca os dois pés atrás.

Eis que a gente mais do que coloca o livro no mundo, o coloca para vender. E transforma o hobby em trabalho. E então lá se vão três exemplares, um para cada mulher da família. E você automaticamente repensa cada segundo que gastou na criação, revisão e apara de arestas porque vira pessoal. Não é mais a foto do face que inventou de escrever para o mundo, mas a filha da Dona Rosângela, neta da Dona Elza, esposa do Wagner. E quando a gente se vê atada a uma comunidade, o medo de ser rejeitada é muito maior.

Porque não se trata mais de pessoas que eu passei a conhecer, mas pessoas que conviveram comigo a vida inteira. Eu não escrevo mais como escrevia, eu não penso mais como pensava, mas para as pessoas que eu convivo, elas lerão aquilo e dirão – Então é isso o que você tem na cabeça, menina?

Se você soubesse, rapaz…

Eu lembro do como foi traumático e vexatório falar para a minha mãe da minha virgindade. Ela com aquele papo de “minha garotinha” eu querendo conhecer o mundo dos adultos. Ela com aquele lance de “não engravide, pelo amor de deus” e eu querendo saber o que vai dentro da roupa.

Pois é. E agora cá estou eu, nem pensando nas palavras que emendei e consegui fazer frases bonitas, nos pontos altos e baixos da escrita, dos re-rascunhos que atualizei, mas nas únicas dez páginas que meti gente transando.

E isso fica rodando na minha cabeça ad infinitum porque meu livro chegou lá no meu pai e ele tá todo orgulhoso porque a filhinha dele lançou um livro, a filinha dele tá se virando na vida.

Só que ele não abriu a desgracêra ainda, tá ligado? E quando abrir, ainda bem que ele mora em outra cidade: eu ainda lembro do dia em que ele conheceu meu namorado e a merda que foi aquilo.

a gente aceita que homem pense merda

Ele estaria se culpando tanto assim por meter *ops* gente transando no livro? Ele estaria toda hora pensando que alguém da família vai comentar que ele escreveu isso e aquilo?

Para a minha família teria sido natural. Ninguém nunca perguntou ao meu irmão se ele ainda era virgem. A gente pressupõe que não, mas não quer saber, no fundo. Só dá camisinha para ele e fala “pegue leve”. Porque ele é homem.

Escrever não é a pior parte, nunca é. Mas eu fico pensando no porquê eu tô me martirizando tanto com uma coisa que todo mundo faz, todo mundo vai fazer, todo mundo devia levar de boa, mas ninguém leva.

Me faz parecer uma menina de novo, que escreve no fundo do quarto pensando em nunca mostrar para o mundo, caneta e caderno, tocos e tocos de lápis, queimando enquanto atravessa a madrugada sem nunca ninguém ver.

E você não tem que passar por reuniões de família, nem telefonemas, rezando “por favor, não comente nada, por favor, não comente”.

  • Indira Arrais

    Como sempre, me identifiquei. Consegui fugir do meu pai, ele, até hoje, não sabe que eu escrevo. Mãinha leu os escritos da filhota dela, e grazadeus nunca comentou sobre as transações! Rs! E assim a vida segue.