Me Dê uma História de Amor

Nem vou advertir, cada post que eu faço parece um chororô, de todo jeito.

Estou lendo, por indicação da Julianna Costa (Essa mesmo que tu tá pensando) pela única vez que nos conversamos, o “A Arte de Pedir” da Amanda Palmer. Ela entra nessa onda de que a gente, artista, não faz nada sozinho, não se lança, não se publica, não faz arte “de verdade” se não entrar em consonância com o público.

E eu, obviamente, como sou uma egoísta do caralho, peguei tudo isso de tapa na cara e trouxe para mim. Desde quando eu parei de me relacionar intimamente com meu público? Desde quando eu parei de conversar com ele, querer saber do que ele acha, ser diretamente relacionada a ele?

Eu sei desde quando. Eu escrevo história de amor reais para pessoas reais, mas nunca perguntei qual a história delas. Eu falo de suor e calos, traumas e abalos (beijo, Emicida) e nunca perguntei qual eram os medos dos meus leitores. O que os faziam temer quando botavam a cabeça no travesseiro e o que sentem quando acordam. Eu parei de me ligar a essas pequenices porque faltava tempo para tudo, eu tinha que escolher, ou escrevia, ou atendia, ou revisava, ou atendia.

E Mano, escrever é solitário. Escrever é sentar teu cu e sangrar, não tem outra. Tu fecha a porta e escorre até não sobrar nada e depois sai cortando tudo o que vasa e perpassa o papel. Escrever não é terapêutico, não é para ser, é para provocar, enfiar o dedão na ferida e falar:

MAS QUE FERIDÃO BONITO, HEIN.

E eu fui, aos poucos, sangrando menos. Escrevendo menos. Me revoltando com o papel, me fechando, escolhendo a escola, o dinheiro, os planos, as metas. Eu quero conhecer um criativo, erga a mão você aí do fundo, eu quero conhecer um criativo fulaninho menestrel que consegue se ater a planos e metas.

(E se tem, sérião, me diz aí como que faz, por que TÁ. FODA).

O Livro da Amanda chegou numa hora que era para chegar. Me coloca exatamente, de volta, para onde a arte tem que seguir. Para onde a gente flui e para onde a gente escorre quando tá todo mundo te lendo.

É isso. Arte é conexão. Arte é não quando eu escrevo (Sartre já falou e eu já escrevi disso aqui), mas quando você lê e me completa. Eu me doo, eu sou empática a você e você me dá o meu espaço no mundo. Me aceita meio louca, meio salto-no-pinto, meio emotiva e meio furiosa. Eu te faço chorar porque você me deixa. Você sente tesão e amor comigo porque me autoriza.

Entende onde eu quero chegar? Não tem arte se não tem contrato e eu estou deixando uma parte totalmente de fora, a parte em que você me completa e me enche de inspiração, ligada num 220 que queima por dias.

Por isso eu perguntei sua história de amor. Me dê um pouco daquilo que eu te dou, venha conversar comigo, chega de pedir desculpas por interromper, atrapalhar, por escrever textão. Só me dê um pouco. Qualquer que queira. Seja você comigo, não só quando tá lendo, mas quando tá me sentindo.

Porque quanto mais você me sentir, menos eu vou precisar escrever. Hoje em dia eu digo NINA e você sabe. Você sente. Não preciso explicar, você sabe do que eu estou falando e a carga emotiva que isso produz.

Ler não é só um negócio. É a faca mais funda que te corta porque você deixa. Vai lá onde nenhum outro humano chega. Vai lá onde você se fecha e chora no banho. Vai lá no seu quarto escuro e escuta seus gemidos baixinhos, seus suspiros sozinhos ou acompanhados. Ler é arte também. Transformação e dois passos para frente, nenhum para trás.

É por isso que eu perguntei da sua história de amor. Tô sempre recebendo, vou trabalhar com elas, mastigar um pouco, viver com elas nas costelas e devolver para o mundo. Virão coisas delas. Arte é ligar os pontos.

Se mexer mesmo parado, dançar no caos e brilhar no escuro.

Eu já brilhei para você.

Vamos, brilhe um pouco para mim: Camila@aquelavelha.com.br